São Paulo, 09 (AE) - Abelardo Jurema, ministro da Justiça no governo João Goulart, morreu hoje, aos 84 anos. Jurema, personagem controvertido do tumultuado período que precedeu o golpe de 1964, estava internado, havia oito dias, num hospital de João Pessoa, na Paraíba, cidade para onde retornou depois do exílio, em 1968. O ministro, paraibano de Itabaiana, sofria de insuficiência respiratória.
Abelardo Jurema, duas vezes eleito deputado federal pelo PSD
a partir de 1958, alcançou visibilidade política no cenário nacional um ano mais tarde, quando assumiu o cargo de líder do governo Juscelino Kubitschek na Câmara, deixado vago com a nomeação de Armando Falcão para o Ministério da Justiça. Com a vitória de Jânio Quadros, na eleição de 1960, Jurema ameaçou com a formação da "maior frente oposicionista da história do País". Mas não durou muito na oposição. Com a renúncia de Jânio
populista indefinível ideologicamente, e a ascensão de seu vice Jango, populista de esquerda, Jurema voltava a estar do lado do governo. Bacharel pela Faculdade de Direito do Recife, foi nomeado ministro da Justiça.
Foi nessa delicada função para um delicado período da história do País que Jurema protagonizou episódios polêmicos. O então ministro confessou ter interceptado telegramas de redações dos jornais. Em dezembro de 1963, Jurema denunciava a existência de uma conspiração para derrubar o governo.
Seis meses mais tarde, já instalado o governo militar, o Exército contra-atacaria. Os militares anunciaram o resultado de investigações, iniciadas logo após a posse de Jurema no Ministério da Justiça, segundo as quais ele vinha "tramando contra as instituições democráticas". De acordo com essas fontes, "o ex-ministro montou em sua pasta verdadeira máquina subversiva, cujo objetivo final era o de desacreditar o Congresso Nacional e intervir em todos os Estados cujos governadores não concordassem com a linha política de Goulart".
No dia 1º de abril de 1964, logo em seguida ao golpe militar, o ministro foi preso por três coronéis do Exército, na base aérea no Rio, onde aguardava com colegas ministros para embarcar para Brasília. Jurema tinha sido a última pessoa a sair do Palácio das Laranjeiras, onde participara, de manhã, de reunião do presidente deposto com o gabinete. Na saída, segundo versões, Jango recusou-se a levá-lo no avião que o levaria para o exílio no Uruguai.
Jurema, por sua vez, partiu em maio para o exílio em Lima, no Peru. Lá, passou a dedicar-se a atividades empresariais, anunciando que deixaria a política, mas retornaria ao Brasil assim que possível. Em janeiro de 1968, Jurema retornava, em condições curiosas, para a época. Sem alarde, sem nenhum embaraço com a polícia e sem que tivesse sido anunciada sua anistia, o ministro desembarcou no Aeroporto do Galeão, onde foi recebido pelo irmão Aderbal Jurema, nessa época deputado federal e vice-líder da Arena, partido que apoiava o governo militar.
Somente em maio de 1970, seria arquivado o inquérito policial-militar para apurar crimes contra a segurança nacional supostamente cometidos por Jurema e outros membros do governo. No fim do governo Ernesto Geisel, em 1978, o ministro voltou à cena, para pedir pressa na abertura política. No ano seguinte, Jurema se tornaria o primeiro ex-membro do governo Goulart a aceitar o convite para encontrar-se com o presidente João Figueiredo, em gesto de reconciliação. Em 1980, Jurema concluía o giro ideológico, filiando-se ao PDS, partido sucessor da Arena. Mas não exerceria mais mandato eletivo. Seu último cargo foi de diretor do BNDES, numa das últimas nomeações de Figueiredo antes de deixar a Presidência.

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