São Paulo, 23 (AE) - Ele detestava o método e gostava de dizer que aprendeu a representar vendo os filmes de Humphrey Bogart e James Cagney. Adepto de uma boa polêmica, George C. Scott chegou a dizer certa vez que o Actors Studio prestou um desserviço ao cinema, destruindo o potencial de grandes atores. Estava referindo-se com certeza a Marlon Brando e Montgomery Clift, os mais famosos garotos- propaganda do método. Scott já era famoso ao recusar o Oscar de melhor ator, que recebeu em 1970 por Patton, Rebelde ou Herói?, de Franklin Schaffner. Ele morreu nesta quarta-feira em Los Angeles, aparentemente de causas naturais, informou um porta-voz. Tinha 71 anos.
Há tempos estava doente. A última polêmica, na verdade, um escândalo, foi em 1996, quando Scott foi acusado pela antiga secretária, Julie Wright, de assédio sexual. Ela pediu US$ 3 milhões de indenização, dizendo que Scott repertidas vezes tentou cariciá- la, beijá--la e gostava de dizer-lhe obscenidades. Na época, temeu- se que o estresse e a ansiedade do julgamento pudessem matar o ator. Scott tinha aneurisma da aorta e se havia submetido a uma operação. O caso terminou em acordo.
Scott foi jornalista antes de ser ator. Consagrou-se na Broadway numa montagem de Desire under The Elms dirigida por Jorge Quintero. Fez sempre teatro e cinema. Preferia o primeiro. Chegou a dizer que fazia cinema pelo dinheiro. "É uma maneira tediosa, aborrecida, de ganhar a vida; é no teatro que me realizo", dizia. Nem por isso deixou de brilhar na tela.
Sua fama era de encrenqueiro e mal-humorado. Chamavam-no de rebelde, tentando compará-lo, na vida, ao seu personagem mais famoso, o general Patton do filme de Franklin J. Schaffner. Era pouco mais do que um estreante em Hollywood quando, no terceiro filme, recusou a indicação para o Oscar de coadjuvante por seu papel no cultuado Desafio à Corrupção, de Robert Rossen, com Paul Newman.
Disse que não ia participar de uma "corrida de ratos", competindo com colegas. Manteve a coerência ao receber a indicação para o Oscar de melhor ator por Patton. Anunciou que não iria à solenidade de entrega do prêmio da academia. Scott não foi, mas venceu. Foi a primeira e única vez que um ator venceu à sua revelia. Dois anos mais tarde, Marlon Brando foi indicado e também ganhou por O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola. Brando não fez campanha contra si mesmo, mas surpreendeu a academia ao enviar uma índia para receber sua estatueta dourada, em protesto contra o tratamento que o cinema e o governo americanos davam aos peles-vermelhas.
Previsível, Scott também recusou o Emmy, o Oscar da TV, que recebeu um ano depois pelo especial The Price of the Hallmark Hall of Fame. Mas aceitou o prêmio dos críticos de Nova York pelo mesmo Patton, dizendo que aquele era o único prêmio que valia a pena receber, dado por gente séria. Depois, surpreendente, fez as pazes com a academia em 1980, quando pediu convites para que ele e a mulher, a atriz Trish Van Devere, assistissem à cerimônia do Oscar. Naquele ano, a transmissão já era feita pela TV e deu para ver que Scott se divertia bastante com a festa.
Capa da revista Time, foi chamado de melhor ator de cinema do mundo. Talvez o sucesso lhe tenha subido à cabeça porque, também em 1970, desentendeu-se com o diretor John Huston durante a rodagem de A Última Fuga e conseguiu que ele fosse demitido da produção, sendo substituído por Richard Fleischer. Apesar de todos esses problemas, era considerado um ator profissional e exigente. Dava-se bem com diretores obsessivos e meticulosos como ele. Um de seus melhores papéis (e uma das convivências mais pacíficas) foi com Stanley Kubrick no set de Doutor Fantástico, quando interpretou um general fascista.
Nascido em 1927 em Wise, na Virginia, Scott era filho do capataz de uma mina. Foi criado em Detroit e serviu como fuzileiro antes de tentar o jornalismo. Trabalhou em grupos amadores de teatro até ter a chance de profissionalizar-se graças ao sucesso que obteve numa montagem de Ricardo III. Chamado por Hollywood, fez seu primeiro filme em 1958: A árvore dos Enforcados, um western de Delmer Daves com Gary Cooper. No ano seguinte, estava no elenco de Anatomia de um Crime, de Otto Preminger e, logo em seguida, veio Desafio à Corrupção.
O mais curioso é que não foi a primeira escolha para fazer Patton. O filme foi planejado para Spencer Tracy, mas os produtores acharam que ele estava muito velho. Pensaram, então, em Lee Marvin e John Wayne. Só depois optaram por Scott. Com o diretor Schaffner, fez também A Ilha do Adeus, uma bela (e triste) adaptação de Ernest Hemingway. Por sua personalidade, não surpreende que tenha tentado a direção. Dirigiu, em 1972, O Fim de uma Angústia e, dois anos mais tarde, Selvagem Despertar, comprando uma briga com o sistema de classificação de censura da Motion Pictures Association. O filme trata de incesto e Scott não aceitou a classificação R (restrito aos maiores de 17 anos). Ele era pai do também ator Campbell Scott.

mockup