Agência Estado
De Recife
O arcebispo emérito do Recife e Olinda, dom Hélder Pessoa Câmara, morreu anteontem às 22h20, de insuficiência respiratória. Ele estava se recuperando de uma infecção em sua casa, nos fundos da Igreja das Fronteiras. De acordo com sua vontade, seria sepultado na Sé de Olinda, ao lado de dom José Lamartine, que foi seu bispo-auxiliar.
A morte de dom Hélder Câmara foi lamentada ontem pelo papa João Paulo 2º. O papa enviou ao Brasil mensagem de condolências pela morte de dom Hélder. Na nota, o papa disse que recebeu com pesar a notícia. ‘‘Entre suas inúmeras atividades pastorais, ele ajudou a criar o Conselho Episcopal Latino-Americano e a CNBB’’, disse o papa.
Dom Hélder tinha 90 anos e era considerado uma das mais importantes figuras do processo de renovação que a Igreja Católica viveu no Brasil a partir dos anos 50. Era uma espécie de patrono da chamada ala progressista do clero. Ajudou a criar o Conselho Episcopal Latino-americano (Celam) e a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Na opinião de um de seus amigos e admiradores, o arcebispo emérito de São Paulo, cardeal Paulo Evaristo Arns, o traço mais importante da personalidade de dom Hélder foi ‘‘sua fidelidade à Igreja e ao povo do Brasil e da América Latina’’.
Dom Hélder nasceu em Fortaleza em 7 de fevereiro de 1909. Ordenou-se padre aos 22 anos e foi indicado para trabalhar como bispo-auxiliar da Arquidiocese do Rio de Janeiro em 1952. Ao lado do cardeal dom Jaime de Barros Câmara, começou a ganhar notoriedade nacional por causa de seus programas radiofônicos.
Em 1964, no ano do movimento militar que depôs o presidente João Goulart, ele foi indicado para o cargo de arcebispo de Olinda e Recife. Nos anos seguintes ele se indispôs com o regime, que passou a persegui-lo. Seu nome era sistematicamente censurado.
Dom Hélder viajava frequentemente para o exterior, a convite de universidades católicas, e dedicava boa parte de seu tempo a denunciar as arbitrariedades do regime. Essa fama internacional contribuiu para preservar o arcebispo. Quem tentou intimidá-lo foram grupos paramilitares que agiam no Recife. Certa vez metralharam o muro de sua casa.
Dom Hélder recebeu o título de doutor honoris causa em quase duas dezenas de escolas e foi premiado diversas vezes por organizações dedicadas à defesa dos direitos humanos. Também chegou a ser indicado em mais de uma ocasião para o Nobel da Paz.
Miúdo, de olhos vivos e proeminentes e frequentemente teatral, ele se tornou nos anos da ditadura numa espécie de divisor de paixões. De um lado era censurado por viajar demais e deixar de lado os problemas da arquidiocese. O dramaturgo Nelson Rodrigues repetia que ele tinha um insaciável apetite pela autopromoção. Ele ganhou também o apelido bispo vermelho.
Foi uma espécie de herói para uma geração de padres, freiras e leigos católicos que se inspiravam nele e o veneravam como símbolo de uma igreja voltada para os pobres. A casa simples que escolheu para morar, nos fundos da histórica Igreja das Fronteiras, em Recife, transformou-se numa espécie de centro de romaria, onde sempre havia alguém à sua procura.
Aos poucos dom Hélder tornou-se uma espécie de patrono histórico da ala progressista da Igreja, vinculada à Teologia da Libertação. Curiosamente, porém, o bispo vermelho sempre esteve aquém dessa doutrina em termos de radicalismo político. Em relação à doutrina da Igreja, sempre foi afinado com as tradições.
Essas suas características de fidelidade à Igreja eram notadas até pelas pessoas que não gostavam de suas idéias progressistas. Hélio Damante, que escreveu sobre religião para o jornal O Estado de S. Paulo durante 50 anos, lembra que ‘‘ele tinha um lado subversivo, mas também apresentava notáveis qualidades’’.’
O padre Nelmo Roque Ten Kathen, autor do livro Uma Vida para os Pobres – A Espiritualidade de dom Hélder Câmara, observou outros sinais de respeito às tradições, como o gosto pela missa diária e pelas orações. Ao se debruçar sobre os escritos do bispo, o padre Kathen não encontrou um filósofo, nem teólogo de peso. ‘‘Sua obra é sobretudo a de um pastor’’, diz.
O arcebispo da Paraíba, dom Marcelo Pinto Carvalheira, que trabalhou 12 anos como auxiliar de dom Hélder, também o vê sobretudo como um bom pastor, tradicionalista e próximo do povo. Para ele, os militares superestimaram a importância do bispo.
Uma das páginas mais controvertidas da biografia de dom Hélder foi o namoro que teve com a Ação Integralista Brasileira, versão brasileira do fascismo, criada em 1932, nos tempos em que ainda estava no seminário. Tornou-se militante fervoroso desse movimento, mas se arrependeu mais tarde, dizendo: ‘‘Foi um pecado da juventude.’’
O prestígio de dom Hélder começou a declinar com a eleição de João Paulo II, em 1978. Preocupado em corrigir os excessos do Vaticano II e temeroso de que o marxismo estivesse contaminando a doutrina da Igreja, o papa impôs uma linha conservadora ao episcopado de todo o mundo.

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