Morre bebê de seita que proíbe amamentação
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terça-feira, 27 de março de 2007
Liège Albuquerque<br>Agência Estado 
Manaus- Um bebê morreu no domingo com graves sinais de desnutrição por conta da crença dos pais, criadores de uma seita, a ''Aliança Eterna'', que prega a não doação de sangue e de leite humano da mãe para o filho. A criança, de quatro meses, morreu na casa onde morava com os pais, Francisco Ferreira de Souza, de 43 anos, e Emedir Rodrigues da Silva, de 31, e foi levada ao Instituto Médico Legal (IML). Segundo um dos legistas, a criança tinha a aparência e peso de um ''feto de seis, sete meses abortado''.
O casal foi indiciado na Delegacia Especializada em Proteção à Criança e ao Adolescente em Manaus por maus tratos ao bebê. Francisco e Emedir têm ainda três filhos, duas meninas de 10 e 12 anos e um menino de dois. A denúncia da morte do bebê e de que ele não era alimentado adequadamente foi de vizinhos.
A causa mortis da criança, de acordo com a necrópsia do IML, foi asfixia por bronco-aspiração, ou seja, ele morreu sufocado pelo próprio vômito.
De acordo com a delegada titular Linda Gláucia Moraes, em cinco anos na delegacia ela não havia ficado tão chocada com um crime. ''O corpinho do bebê era de dar pena e os depoimentos inacreditáveis: uma mãe dizendo que não podia dar leite ao bebê porque era como dar seu sangue e sua religião não permitia'', disse.
Emedir, segundo a delegada, negou que maltratasse o filho e que, se ele tinha morrido, seria ''por vontade de Deus''. O mais grave, para a delegada, era que o casal não tinha condições financeiras para comprar leite para bebês. ''Assim, a criança morta era alimentada com uma espécie de mingau com água e trigo ou farinha de mandioca, segundo a mãe''.
O casal poderá perder a guarda dos três filhos à Justiça. Anteonte os três foram encaminhados à Central de Resgate da Criança e Adolescente da Zona Oeste de Manaus, no bairro da periferia onde mora o casal. A medida, segundo a delegada, foi necessária para resguardar a integridade das crianças. Além dos possíveis maus tratos aos três, foi descoberto que os dois mais velhos nunca frequentaram a escola e são analfabetos.
A delegada comunicou a ocorrência ao juiz da Infância e Juventude, ao Conselho Tutelar da Zona-Oeste, e ao Ministério Público do Estado.
Uma vizinha afirmou ter sido uma das denunciantes do crime. ''As crianças maiores não podem brincar com as outras crianças, não vão à escola, não têm televisão, rádio ou livros em casa. Não podem ficar com os pais, que saem todas as noites para o culto deles e deixam os filhos trancados'', disse.
Segundo ela, o culto à seita fundada há dez anos por Francisco não tinha muitos seguidores no bairro, mas reunia muitas pessoas em um barracão próximo à casa. ''Nós não aguentávamos mais ouvir o bebê chorando de fome e os maiores chorando baixinho''.


