São Paulo, 11 (AE) - Morreu hoje, no Hospital e Maternidade São Lucas, em São Paulo, o cantor e ritmista Arnaldo Rosa, fundador do conjunto "Demônios da Garoa". Paulistano, nascido em 23 de fevereiro de 1928, Arnaldo ainda atuava com o grupo: era dele aquela voz gaiata, aguda, caricata, que dava graça especial aos breques dos Demônios: "Não posso ficar" - cantava, para que as outras vozes, em coro, recomeçassem o "Trem das Onze".
Os "Demônios da Garoa" têm, agora, vivo, só mais um fundador: Antônio Gomes Neto, o Toninho, também nascido em 1928. O grupo foi fundado em 1943, por Arnaldo, Toninho, Francisco Paulo Galo, Artur Bernardo e Cláudio Rosa. No início, ainda amadores, os cinco amigos faziam serenatas e cantavam em festas do bairro da Mooca. Nesse tempo, eram o Grupo do Luar, ou Seresteiros da Lua.
Participaram de um programada de calouros da Rádio Bandeirantes e saíram vencedores. O radialista Vicente Leporace sugeriu a mudança do nome: "Demônios da Garoa" era, acreditava
mais condinzente com o espírito paulistano que o grupo traduzia em sua música. Contratados pelas Emissoras Unidas (rádios Bandeirantes, Record, Panamericana e São Paulo), fizeram sucesso relativo.
Gravaram, em 1949, a música "Mulher Rendeira", para a trilha do filme "O Cangaceiro", de Lima Barreto; passaram a lançar discos e venceram, em 1951, o carnaval de São Paulo, com o samba "Malvina", de Adoniran Barbosa. Começava ali uma das uniões musicais mais famosas da música brasileira; a dos "Demônios" com Adoniran. Eles venceram o carnaval do ano seguinte com novo Adoniran (Joga a Chave) e, em 1954, chegaram ao ápice com dois originais do compositor, "Saudosa Maloca" e "Samba do Arnesto".
O primeiro elepê do conjunto, lançado em 1958, reunia "Saudosa Maloca", "Iracema", "As Mariposas", todas de Adoniran Barbosa. O compositor utilizava linguagem propositalmente errada: queria fazer a crônica de sua cidade (como Noel Rosa fez do Rio). Os "Demônios da Garoa", na opinião do produtor musical J. C. Botezelli, o Pelão (que produziu o primeiro disco em que Adoniran aparece cantando), exageravam na caricatura, tornando as músicas apenas engraçadas, quando o compositor as pretendia críticas.
Seja como for, os "Demônios da Garoa" tornaram-se sucesso nacional, participando de filmes e gravando mais de 60 discos. Em 1964, uma proeza: foram os vencedores do Carnaval do 4.º Centenário do Rio de Janeiro. Novamente com uma música de Adoniran, "Trem das Onze". Foi o maior sucesso do grupo e um dos maiores êxitos da música brasileira. Numa eleição recentemente promovida por uma emissora de televisão, "Trem das Onze" foi eleita a música que melhor representa São Paulo.
A formação dos "Demônios" mudou muito, com os anos, abrigando grandes músicos, como o violonista Ventura Ramires e o percussionista Oswaldinho da Cuíca. Arnaldo Rosa foi, por quase 57 anos, a voz principal, marca do grupo. Ele foi internado na quarta-feira. Morreu de hemorragia digestiva, em consequência de uma antiga cirrose hepática. O corpo do músico será enterrado, amanhã, às 11 horas, no Cemitério Quarta Parada, na zona leste de São Paulo.

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