Morre aos 75 o educador Paulo Freire
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 02 de maio de 1997
Agência Estado 
Edson Guitti/Arquivo FolhaO alfabetizadorCom uma aposentadoria de R$ 700, Freire ainda lecionava pós-graduação em São Paulo. Ele costumava dizer que tinha que trabalhar para sobreviverSÃO PAULO - O educador Paulo Freire, 75 anos, morreu às 5h30 desta sexta-feira no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Ele foi internado, anteontem, com dores no peito e chegou a ser submetido a um cateterismo, mas não resistiu. O velório aconteceu no saguão do Teatro da Universidade Católica (Tuca), na Rua Monte Alegre. O enterro está previsto para hoje no Cemitério da Paz, no Morumbi. Ainda não se sabe o horário, pois este depende da chegada dos filhos dele que estão na Europa.
O pedagogo Paulo Freire tem 25 livros publicados em 35 idiomas e é conhecido internacionalmente pelo método de alfabetização de adultos na obra Pedagogia dos Oprimidos. O seu mais recente livro Pedagogia da Autonomia, foi lançado no último 10 de abril.
Paulo Freire ainda lecionava na pós-graduação da Universidade Católica de São Paulo. Com uma aposentadoria de R$ 700, ele costumava dizer que tinha que trabalhar para sobreviver. No segundo semestre deste ano ele daria um curso na Universidade de Harvard.
Freire nasceu em Recife, mas estava morando em São Paulo desde que retornou do exílio político no Exterior, onde foi secretário da Educação no governo da ex-prefeita Luiza Erundina. O educador deixa cinco filhos.
O governador de Pernambuco, Miguel Arraes (PSB), decretou luto oficial por três dias no Estado devido à morte do educador Paulo Freire. Também a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde Freire era professor emérito, decretou luto oficial por três dias. O secretário estadual de Educação, o escritor Ariano Suassuna, abalado com a notícia da morte do educador, deixou Recife ontem.
O governador lamentou a perda de Freire, destacando seu papel revolucionário não somente na educação, mas também na transformação da consciência da sociedade, na medida em que ele alertava para a nossa realidade.
Uma das primeiras experiências do método de alfabetização de adultos criado por Paulo Freire aconteceu em 1960 no Departamento de Obras da Prefeitura do Recife, quando Arraes era prefeito. O resultado impressionou Arraes: em 40 horas/aula os trabalhadores do setor já tinham capacidade de ler e escrever. Por isso, o prefeito decidiu incorporar o método no Movimento de Cultura Popular (MCP), idealizado pelo escultor Abelardo da Hora.
Segundo Abelardo, através do MCP, o método de Paulo Freire foi implantado em favelas, morros e alagados da cidade, alfabetizando gente em todo espaço disponível - associações, clubes. O MCP levava artes plásticas, teatro, dança e educação ao povo e foi extinto com o golpe militar de 64. Nessa época, o método de Freire foi considerado subversivo.
Arraes voltou a se encontrar com Paulo Freire em Genebra, na Suíça, quando ambos estavam exilados e, em janeiro deste ano, o educador fez uma palestra no município de Catende, na Zona da Mata, a convite do governador, durante o lançamento de um programa de alfabetização de trabalhadores da cana-de-açúcar.
Integrante do Conselho Nacional de Educação e ex-secretária municipal de Educação nas duas gestões do ex-prefeito Jarbas Vasconcelos (PMDB), Edla Vasconcelos ressaltou que Paulo Freire foi o grande inspirador de uma nova base para o pensamento pedagógico brasileiro.
A grande contribuição de Paulo Freire foi para a democracia brasileira, frisou a educadora. Ele colocou em pauta a educação popular e foi um defensor rigoroso de uma escola pública de qualidade. Segundo ela, as idéias de Freire, lançadas na década de 60, continuam atuais e orientam a produção acadêmica das novas gerações.
Admiradora e amiga de Freire, Edla Soares disse que ele a ajudou muito quando era secretária de Educação e adotou seus princípios no projeto educacional do município. Ela destacou, ainda, sua coragem como cidadão, um homem sempre aliado das forças sociais e políticas que lutam para transformar o Brasil num país mais justo e solidário.
Ex-presidente do MCP e ex-prefeito de Olinda, Germano Coelho considerou a morte de Paulo Freire uma perda irreparável para a pedagogia brasileira.


