Morre Amália Rodrigues, voz da alma do povo português
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 05 de outubro de 1999
Por MAURO DIAS 
São Paulo, 06 (AE) - Calou-se a voz da alma do povo português: com essa frase, o poeta Manuel Alegre sintetizou o que sentem os portugueses com a morte da cantora Amália Rodrigues. Seu corpo foi encontrado hoje (06), às oito horas da manhã, na casa do bairro de São Bento, em Lisboa. A causa da morte não havia sido divulgada até o inicio da tarde. O velório estava programado para começar às 15 horas, na Basílica da Estrela.
Amália Rodrigues estava com 79 anos e havia manifestado, recentemetne, a vontade de voltar cantar. Na noite anterior, havia comparecido a uma casa de fado no Brejão, no Além-Tejo, 150 quilômetros ao sul de Lisboa; de lá, deveria seguir para uma tourada, que seria realizada em sua homenagem, no Ribatejo. Sentiu- se mal, cancelou o compromisso.
O governo português decretou três dias de luto oficial. Portugal está em campanha política. Os dois principais partidos tiraram a música de sua propaganda eleitoral. O Partido Socialista e o Social Democrata confirmavam a frase de Manuel Alegre. Pela manhã, tão logo a notícia da morte foi divulgada, multidões dirigiram-se para a a frente da casa da cantora. O minstro da Cultura, Manuel Maria Carrilho, declarou que Amália foi a personalidade mais representativa do sentir português.
Não há, na música brasileira, alguém como Amália Rodrigues, aclamada pelo povo das cidades e do interior, pelas mais diferentes facções políticas, pelos intelectuais e pelos mais simples. Foi, quase sempre, na longa carreira, uma unanimidade.
Quase sempre. Quando começou, na década de 30, foi acusada de cantar de forma espanholada. Adorava Carlos Gardel. Acusavam-na de estar contaminando a música portuguesa com o sotaque portenho. Depois, viu-se que não era bem essa a verdade.
No início dos anos 70, as lideranças (e os participantes) do movimento que culminaria com o fim do regime salazarista acusavam Amália de representar um dos símbolos dos tempos fascistas: naquele momento, dizia-se, Portugal fazia-se simbolizar - e iludir - pelos "três efes": o fado, o futebol, a Virgem de Fátima. O fado era Amália.
Mais uma vez, a acusação caiu no vazio. Tanto assim que, alguns anos mais tarde, líderes daqule movimento libertário - como os poetas Manuel Alegre, Davi Mourão Ferreira e Alexandre ONeil - escreveram poemas para os fados de Amália.
Ela nasceu na freguesia da Pena, no dia 23 de julho de 1920. O pai trabalhava com couro, a mãe era doméstica. Com 9 anos, cantou pela primeira vez, em público. Foi bordadeira e trabalhou em fábrica de bolos e doces, até o s 15 anos quando cantou pela primeira vez o fado, em Alcântara. Nos anos seguintes, tornou-se conhecida nos meios fadistas.
Certo de que a linda voz era predestinada, um amigo levou-a ao Retiro da Severa, casa tradicional de fado. Amália fez prova, para poder cantar na casa. Passou e, contrariando a família, estreou profissionalmente, em 1940.
Do Retiro da Severa, projetou-se nacionalmente. É daqueles anos iniciais seu primeiro grande sucesso, o Fado do Ciúme, de Frederico Valério, peça integrante de uma opereta.
Mas, curiosamente, apesar do prestígio, Amália não gravou discos, nos anos 40, em Portugal. Diziam-lhe, e ela acreditava, que se gravasse discos o público abandonaria os concertos. Por isso, ela só arriscou uma gravação no Brasil, quando esteve aqui pela primeira vez, em 1944.
Fez, no ano seguinte, vários registros em 78 rotações por minutos, para a gravadora Continental. Entre os títulos, o famoso Ai, Mouraria, uma de suas peças mais clássicas. Já era conhecida no mundo, embaixadora musical de seu país. Estreou no cinema com Capas Pretas, de Armando Miranda. Seus dois maiores sucessos cinematográficos foram Fado, de Perdição Queiroga, diretor tradicional português, e Vendaval das Maravilhas, de Leitão de Barros, co-produção luso-brasileira.
Amália Rodrigues cantava sempre vestida de preto. Perfigurava a essência trágica do fado, palavra que quer dizer destino. Seu canto era pungente não apenas pela voz educada e sóbria (em que pesassem os dramas cantados) mas também pela eloquência das mãos, gestos sempre precisos, a completar o que diziam as palavras (Maria Bethânia, que regravou vários clássicos de Amália, aprendeu muito com ela) e pela expressão grave do rosto forte. "Minha única política: o fado; minha única revolução: o fado; minha vida: o fado", disse uma vez..


