Homens, mulheres e crianças voltaram a disputar ontem alimentos que escaparam do incêndio que destruiu um dos pavilhões da Central de Abastecimento do Estado (Ceasa), em Irajá, zona norte do Rio -, há dez dias. Foi o segundo saque consecutivo nas instalações da unidade. A notícia de que ainda se podia encontrar algum alimento espalhou-se. Entre as cerca de mil pessoas que ocuparam os escombros, ontem, muitas vinham de bairros distantes, como Pavuna, Méier, e até Piabetá, distrito de Magé, na Baixada fluminense, além de moradores das favelas vizinhas à Ceasa.
Os saqueadores amontoaram-se na frente da Ceasa por volta das seis horas. No início, os 35 seguranças contratados pela administração da central conseguiram conter o povo. Mas os argumentos de que os alimentos poderiam estar contaminados pelos gases liberados no incêndio não convenceu os saqueadores, que às 10 horas, aos gritos de ‘‘vamos invadir’’, romperam a barreira e ocuparam os escombros. Os 30 policiais militares não impediram o novo saque.
A população passou então a brigar por sacos de arroz, sal, feijão, açúcar, latas de óleo, de extrato de tomate e milho amassadas, carne seca, frutas e legumes. O vazamento de canos rompidos e a água usada pelos bombeiros para apagar o fogo transformaram o local num enorme lamaçal. O cheiro de comida já apodrecida dava aos escombros ar de depósito de lixo.
Os saqueadores arriscavam-se sob lojas que desabaram parcialmente. Ali estavam os produtos mais bem conservados. Do lado de fora das lojas, quem já tinha alimento suficiente garimpava moedas caídas na lama, fios de cobre, chapas de ferro, portas de madeira. Até um ar-condicionado e um frigobar foram levados pelos saqueadores.
No domingo, cerca de 200 pessoas saquearam a Ceasa. Um incêndio havia destruído parte das instalações da central no último dia 21 e os moradores de favelas das redondezas tentaram recuperar alimentos, que resistiram ao fogo. A polícia esteve no local, mas não conseguiu conter a população.
A administração da Ceasa vinha distribuindo alimentos ao longo da semana, mas anteontem de manhã os administradores resolveram queimar o resto dos produtos. A atitude revoltou os moradores das favelas de Acari e Pára-Pedro, e do conjunto Amarelinho, que vinham sendo beneficiados com a distribuição. No domingo, às 18 horas, eles iniciaram os saques.
A polícia chegou à Ceasa por volta das 18h30 e conseguiu conter a população por alguns instantes. Os policiais chegaram a disparar tiros para o alto, para manter os saqueadores distante dos escombros. Às 19 horas, no entanto, um boato de que a entrada havia sido liberada levou as pessoas a voltar a saquear.
A PM, a direção da Ceasa e a Associação Comercial dos Produtores e Usuários da Ceasa (Acegri) trocaram acusações sobre a responsabilidade pela invasão. O diretor da Ceasa, Luiz Anchite, disse que a responsabilidade pela segurança patrimonial é da Acegri. Segundo ele, a Ceasa não se responsabilizará por acidentes ou intoxicações resultantes dos saques. ‘‘Fizemos a nossa parte. Pedimos reforço policial’’, disse ele, informando que a remoção dos escombros começará sexta-feira.
O presidente da Acegri, Waldir de Lemos, disse que mantinha dez homens armados guardando o pavilhão, mas eles não tiveram como impedir a invasão. ‘‘Estávamos pedindo reforço à PM desde segunda-feira.’’
O comando do 9º Batalhão de Polícia Militar informou que, até as 13h30, a Ceasa não havia pedido para evitar os saques. Segundo ele, a área será mantida isolada por 20 policiais.
A chegada da PM frustrou moradores que chegavam à Ceasa com cestas ou carrinhos. Quem chegou atrasado, ficou de mãos vazias. (Com Agência Folha)

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