Os moradores que perderam tudo no desabamento do Palace 2 estão dispostos a garimpar os entulhos do prédio em busca de qualquer documento, fotografia ou objeto, inteiro ou aos pedaços.
A professora Ady Monteiro de Barros, 52, mantinha em casa bens herdados de seu pai, dono de um antiquário. Ady guardava relógios de mais de 200 anos, jóias, documentos do século 18 e faqueiros de prata antigos. O valor dos objetos, segundo ela, é impossível de ser calculado.
A professora fazia uma pesquisa sobre os objetos e móveis e catalogava os dados no computador. Tudo ficou no apartamento. ‘‘Não tínhamos seguro de nada, esse é o problema do brasileiro’’, disse o marido de Ady, o psicólogo Carlos Magno Celestino.
Salvo por pouco do desmoronamento que deixou oito vítimas, o casal deu a sorte de ter trazido consigo uma pasta que continha a cópia de vários documentos de Celestino. ‘‘Eu ia levar para renovar a carteira de motorista.’ Ady, que havia retornado ao apartamento na madrugada de domingo para pegar alguns documentos, deixou o prédio cinco minutos antes do desabamento.
Numa lista de exigências divulgadas pelos moradores, está a solicitação de segurança extra para vasculhar os entulhos. ‘‘Quem garante que isso aqui não vai ser invadido? Queremos que os bombeiros nos ajudem e que o terreno seja cercado. As pessoas vão pensar que isso aqui é um lixão, mas é o que resta das nossas lembranças, da nossa vida’’, disse a arquiteta Márcia Lima, representante dos moradores. Ela disse que quer procurar nos entulhos restos de documentos.
A indefinição de um lugar certo para passar a noite é uma preocupação a mais para os moradores do Palace 2. Muitos ficam o dia inteiro na frente do prédio, à espera de notícias sobre o destino do edifício. ‘‘Lugar para dormir? Só penso nisso à noite’’, disse a representante comercial Léa Oliveira, de 30 anos, que morava no 408 do Palace 2, com o marido. ‘‘Tenho dormido cada dia na casa de um. É muito chato, assim pelo menos eu não incomodo ninguém por muito tempo’’, afirmou.
Catorze pessoas de uma mesma família ocupavam quatro apartamentos em dois prédios interditados: o Palace 1 e o Royal. No Royal moram o médico Aldo Bastos, 62, sua mulher e seu filho Omar, médico, sua mulher e dois filhos. No Palace moram um filho dentista, Fábio Bastos, com a mulher e dois filhos, e um filho anestesista, Marcelo Bastos, com a mulher e dois filhos. Todos estão tendo que se abrigar em casas de outros parentes.
Aldo Bastos podia ser visto sentado no chão da calçada, sem falar, sem comentar o drama da família. A mulher de Marcelo, a angiologista Carla Bastos, temia pela saúde do sogro, que tem problemas de coração. Ela disse que tentou manter a calma nos primeiros dias, mas acabou se desesperando. ‘‘As crianças estão fora da escola, eu estou cancelando consultas e cirurgias. Sei que sou uma médica, que tenho que manter o equilíbrio, mas é difícil acreditar que vão resolver nossa situação’’.
Temerosos do impacto da implosão do Palace 2, vizinhos dos prédios desocupados retiraram televisões, computadores, roupas e outros bens dos apartamentos. ‘‘O astral já está baixo por causa de tudo, não teria sossego em deixar nossas coisas’’, disse José Renato Silva, 37 anos, que trabalha em um clube de turismo para a terceira idade. Silva, que mora no edifício Estrela do Mar, vizinho ao Palace, separou vários bens na quinta à noite e voltou para pegá-los na sexta de manhã. Meu filho não fica sem o computador’’, disse.

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