Campos do Jordão, SP, 06 (AE) - Nas portas das casas vazias do Morro do Pica-Pau, na Vila Albertina, em Campos do Jordão, havia cadeados. Nos cômodos, móveis abandonados. Roupas secavam no varal ou estavam empilhadas nos tanques nas varandas. Hoje, aproveitando o dia ensolarado, moradores que deixaram tudo às pressas começaram a voltar para tentar salvar o que a chuva e os deslizamentos não haviam levado.
Outros, que nem sequer deixaram o lugar, observavam o trabalho de resgate dos bombeiros. "Não tenho para onde ir", disse Silene Maria dos Santos, de 24 anos. Com uma filha no colo
outra pela mão, ela dizia ter medo de continuar morando no alto do morro. "Mas tem de ter fé em Deus." A filha Cristina, de 1 ano, repete o que viu na noite de ano-novo, quando foram abaixo quarteirões inteiros. "Casinha caiu mamãe, casinha caiu." Paulo Cesar, de 6 anos, também ouviu quando as pessoas gritaram, explodiram fogos de artifício anunciando o ano 2000 e um grande estrondo antecipou o desmoronamento.
Chovia forte. Cristina ficou acordada ao lado dos filhos e saiu até o quintal quando ouviu os gritos. Continuou em casa. Depois de algum tempo, como os deslizamentos continuavam, ela subiu as vielas de escadas cavadas no barro arrastando o menino e a menina para longe de onde tudo desabava. "Quando estouraram os primeiros fogos, tudo começou a cair." A crença de que aquilo não vai se repetir lhe basta para não querer sair dali. As lembranças, no entanto, lhe tiram o sono. "Até hoje não sei o que é dormir."
Enquanto ela falava, um grupo de homens trabalhava para abrir um caminho seguro para que o fusca vermelho da família pudesse ser salvo. Puxavam a terra com enxadas e pás e esperavam que um guincho viesse erguer o carro para onde ainda havia rua. "Aqui está mais ou menos seguro", disse o jardineiro Luiz Inácio Melo, de 37 anos, o dono do veículo.
O platô isolado onde trabalhavam era acessível apenas escorregando pela encosta de barro. Ao lado, uma família recolhia móveis, roupas e colchões da pequena casa azul, quase toda destruída. As crianças maiores ajudavam os adultos a subir a encosta com o que pudessem levar sobre a cabeça. Escorregaram e caíram várias vezes. Na casa de onde se podia observar tudo isso havia um cadeado na porta e uma parede derrubada pela terra que se avolumava entre os móveis da cozinha.
Vicentina Maria de Jesus e Maria Aparecida da Silva, de 52 e 56 anos, subiam o morro com caixas e galinhas. Nada ocorreu em suas casas. Elas retiravam tudo, mas pensavam em voltar. "Não tem perigo, não", disse Maria. Com ou sem perigo, João Cristiano Vicente, de 64 anos, ficava em seu quintal. Ele vigiava as roupas que secavam no varal e os móveis dos saqueadores que haviam roubado outras casas. "Se lerdar, o povo pega mesmo."

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