Rio, 30 (AE) - O som de canecas contra as grades e os gritos dos presos mantiveram a psicóloga Thaís Bezerril, de 37 anos, e a mãe, a aposentada Haydde, de 59, acordadas a madrugada toda. Elas moram no Edifício Greenhalg, na Avenida Afrânio de Melo Franco, no Rio, que tem as janelas viradas para os fundos da 14ª Delegacia Policial (Leblon). "Minha filha de 9 anos perguntava se ela ia morrer com tiro de bala perdida; pensamos até em dormir no chão", contou Thaís.
Ela e a mãe moram há 25 anos no prédio e garantem que a delegacia, que recebe presos da zona sul, é um "barril de pólvora". Haydde diz que quando a situação se agrava na carceragem, são os moradores que ligam para a central de polícia
pedindo reforço. "Uma vez eles estavam tentando fugir com uma teresa (corda feita com pedaços de pano) e nós que avisamos os guardas", contou. As tentativas de fuga da 14ª DP não são novidade. Há 20 anos, Thaís pegava um ônibus, quando três ou quatro fugitivos entraram junto com a psicóloga. "Foram momentos de terror, só conseguimos descer em Ipanema", disse. "Não pode haver presídio dentro de um bairro, isso devia servir para triagem de preso".
A noite também foi de horror para a pedagoga Carmem Paula da Mota Gilson, moradora das redondezas da delegacia. "Lembrei dos dias que meu filho passou lá dentro; isso é a sucursal do inferno", afirmou. O filho dela, Ricardo Augusto, de 22 anos, era viciado em drogas e foi preso por roubar R$ 36 00. Ele foi morto por espancamento dentro do Manicômio Judiciário Henrique Roxo, em abril, para onde o transferiram afim de ser submetido a tratamento psiquiátrico. Carmem acusa agentes penitenciários pela morte do filho.
Para o engenheiro Humberto Antunes, de 71 anos, síndico do edifício em frente à 14ª DP, na Rua Humberto de Campos, a delegacia é "um mal necessário". "Sinto-me seguro aqui, não tem nem motivo para aumentar a segurança", afirma o engenheiro, que foi secretário de segurança em Brasília, na década de 60. "Essa tentativa de fuga é decorrente da superlotação, mas é uma coisa rara de acontecer".

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