Moradores denunciam abusos em favelas ocupadas pelo Exército
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quinta-feira, 09 de março de 2006
Roberta Pennafort<br>Agência Estado 
Rio- Moradores de favelas do Rio ocupadas pelo Exército superaram o medo e denunciaram, ontem, abusos dos militares. Eles contaram que, em algumas comunidades, foi instituído um toque de recolher informal às 20 horas, o que impede que os trabalhadores voltem para suas casas. Os soldados são acusados ainda de agredir e xingar homens e mulheres e de revistar crianças, que estão deixando de ir à escola porque as mães temem passar pela tropa.
O Exército mantém 1.200 homens em dez favelas e em dois pontos de acesso e saída do Rio: as rodovias Presidente Dutra e Washington Luís (foram retirados os bloqueios na Ponte Rio-Niterói e na estrada Rio-Santos). Os militares ainda não têm pistas de onde estão escondidos os dez fuzis e a pistola roubados na madrugada da sexta-feira passada. A ocupação começou na noite do mesmo dia.
No Morro da Providência os moradores, que já haviam protestado contra os maus-tratos na porta do Comando Militar do Leste (CML), voltaram a reclamar. Lá, na noite de quarta-feira, houve tiroteio entre traficantes e militares, o primeiro confronto direto desde o início da operação.
''Nossa vida foi transformada. Estamos numa prisão, mesmo sem termos cometido crime. Não tenho coragem de levar meu filho ao colégio e não conseguimos dormir'', contou a dona de casa Marta Braga, de 34 anos. O próprio menino, Flávio, de 11 anos, se sente intimidado. ''Já vi garotos da minha idade sendo revistados.'' Ele estuda na Escola Municipal Darcy Vargas, uma das cinco unidades localizadas na área da Providência. Muitos alunos têm faltado em todas elas.
O cerceamento do direito de ir e vir é o que mais incomoda na Providência. ''Ontem, ao chegar do trabalho, tive que subir o morro a pé porque a Kombi (lotação) foi barrada pelos soldados. Eles diziam palavrões e gritavam que era para subir rápido, sem parar'', relatou uma mulher de 40 anos. ''À noite, não podemos sair. Vizinhos já levaram tapas na cara por desobedecerem.''
Os problemas também são sentidos na Mangueira. Lá, as 20 escolas do morro e do entorno tiveram suas salas esvaziadas. ''Seria melhor se as operações não ocorressem no horário escolar'', afirmou o presidente da associação de moradores, José Roque. O município poderá repor aulas se for preciso.
O Comando Militar do Leste (CML) recebe as críticas e as repassa aos responsáveis pelas bases nas favelas. ''O general (Domingos Curado, comandante militar do Leste) quer o mínimo de inconveniente e o maior zelo possível com os moradores'', informou o coronel Fernando Lemos, relações-públicas do CML.
Ontem, no Morro do Dendê, olheiros debocharam dos soldados mais uma vez. De radiotransmissor na mão e camisetas na cabeça, para esconder os rostos, eles chegaram a dançar ao atravessar uma rua. Os soldados também têm sido alvo de brincadeiras de adolescentes das favelas - mas não se deixam abalar, disse o coronel Lemos. ''Eles têm de engolir. Estão preparados psicologicamente.''


