Mas estes entrevistados não mostraram sinais de exultação ou triunfo por causa dos ataques aéreos do ocidente ao país do qual eles costumavam fazer parte, pois sabem muito bem como é estar nesta situação.
"Eu passei por quatro anos de bombardeio", disse Boro Kontic, líder do Centro de Mídia Soros em Sarajevo. "Não desejo isso para ninguém". Hafeza Softic, uma pensionista que foi expulsa do bairro de Grbavica em Sarajevo por soldados sérvios no verão de 1992, disse que o próprio Milosevic tem culpa pela sangrenta desintegração da antiga Iugoslávia, e não o povo sérvio. "Eu não fico feliz com a miséria das outras pessoas", disse ela.
Mesmo assim, os moradores de Sarajevo - que sofreram durante três anos do medo constante da morte - deram boas vindas à campanha aérea da Otan, dizendo que era a única maneira de parar com o derramamento de sangue nos Bálcãs. "Milosevic reconhece apenas a força, e só a força pode detê-lo", disse Camil, um motorista de táxi. Ele e outros afirmaram que o Ocidente deveria ter agido sete anos atrás, antes da Bósnia ter entrado num conflito que acabou com mais de 200 mil vidas. "Isso deveria ter acontecido há muito tempo", disse Camil. "Nós sangramos aqui durante quatro anos por causa de Belgrado".
Cerca de 11 mil pessoas morreram no cerco de 1.300 dias da capital bósnia pelas forças separatistas sérvias apoiadas pelo governo de Belgrado. Em cenas diárias de morte e destruição, civis eram mortos por bombas, tiros e armas antiaéreas dirigidas para a cidade dos morros que a cercam. Os principais hospitais ficaram sob fogo enquanto a cidade era atacada e campos de futebol eram cavados para que os mortos fossem enterrados. Como em Kosovo hoje, centenas de milhares de bósnios foram tirados de suas casas, "eticamente limpas" pelas forças sérvias. Durante anos as pessoas esperaram em vão pela intervenção militar do Ocidente para colocar um fim na luta. Um acordo de paz foi finalmente alcançado em 1995, mas apenas depois da Otan enviar uma grande missão de combate contra os sérvios da Bósnia.
Agora, mais de três anos depois, a Otan está novamente mostrando sua determinação em parar com a violência nos Bálcãs, desta vez contra a maioria albanesa étnica na província sérvia do Kosovo. Na semana passada, as pessoas da Sérvia viram pela primeira vez pontes destruídas e edifícios do governo destroçados conforme as aeronaves da Otan direcionavam seus ataques para a infra-estrutura de apoio do exército e das forças de segurança da Iugoslávia.
"Eles merecem isso", disse Abadzic Fikreta, um contador de meia-idade de Sarajevo. "Eles não reagiram quando nossas crianças foram mortas no meio da rua". Seu filho morreu quando uma bomba sérvia explodiu num mercado no centro de Sarajevo em 5 de fevereiro de 1994, matando 69 pessoas e ferindo muitas mais.
A Otan diz que seus ataques à Iugoslávia são cuidadosamente executados de modo a evitar casualidades civis. Os civis bósnios e croatas que ficaram sob fogo sérvio de 1991 a 1995 não foram poupados por "armas inteligentes", como as que compõem a maioria dos armamentos usados na campanha aérea da Otan, que começou no dia 24 de março. Ao invés disso, eles foram repetidamente atingidos por tanques, artilharia e morteiros, e geralmente ficavam sem suprimento de comida e combustíveis.
Oito anos de guerra também afugentaram dezenas de pessoas dos outros maiores centros populacionais da região. O velho porto de Vukovar no Danúbio foi reduzido a ruínas durante um cerco sérvio de três meses. A cidade costeira de Zadar, na Croácia, foi bombardeada, e a cidade a leste de Osijek foi atingida repetidamente por artilharia. As forças sérvias fizeram chover morteiros na velha cidade adriática de Dubrovnik e lançaram bombas das montanhas contra a cidade de Mostar, uma das mais atingidas. Mais do que qualquer outro local, Sarajevo se tornou o símbolo do sangrento colapso do país.
Hoje, os moradores de Sarajevo reclamam que as pessoas de Belgrado falharam ao não lhes mostrar apoio quando sua cidade era bombardeada. "As mesmas pessoas que estão sendo bombardeadas hoje em Belgrado nunca mostraram qualquer solidariedade conosco durante o mais pesado bombardeio contra a cidade", disse um homem. Ele e outros também são contra qualquer comparação entre o cerco de 43 meses de Sarajevo e o bombardeio da Otan à Sérvia, a república dominante da Iugoslávia, apesar dos relatos iugoslavos de vítimas civis. "Eles têm sirenes de ataques aéreos anunciando os bombardeios e têm abrigos", disse um homem. "Aqui as pessoas foram mortas enquanto esperavam por água, enquanto faziam compras no mercado". "Não se pode comparar o sofrimento".por Daria Sito-Sucic, da REUTERS (assinatura obrigatória) SARAJEVO (AE-REUTERS) - Enquanto a campanha de bombardeios da Otan à Iugoslávia entra em sua terceira semana, amargos residentes de Sarajevo dizem que o governo do presidente Slobodan Milosevic está tendo o que merece. Muitos nas ruas e cafés da cidade, que ainda traz cicatrizes do cerco das forças sérvias de 1992 a 1995, confessam sentir que era a hora certa para a Otan atacar Belgrado - bombardeada pela primeira vez desde que a velha Iugoslávia entrou em colapso no começo dos anos 90.

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