Moradores da Mooca dizem que não viram vereador
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quarta-feira, 31 de março de 1999
Por Andréa Portella 
São Paulo, 01 (AE) - Antes de entregar-se à polícia, o vereador Vicente Viscome esteve escondido em seu escritório político, na esquina das Ruas Tobias Barreto e Siqueira Bueno, na Mooca. De acordo com o delegado Naief Saad Neto, a polícia esteve no local há alguns dias, mas, como Viscome teria trocado de esconderijo algumas vezes, não o encontrou. O local foi comitê da campanha de Paulo Maluf (PPB) no ano passado.
Nas ruas próximas ao local, as informações sobre o assunto são desencontradas. Um morador que não se identificou disse que o vereador entrava e saía do escritório em ambulâncias. O serviço de ambulâncias de Viscome é um de seus trunfos políticos. Muita gente fala do atendimento como uma mostra de que o vereador não pode estar envolvido em esquemas ilícitos.
De acordo com moradores, pelo menos seis empregados cuidavam do atendimento, feito em quatro veículos. Nos casos de emergência, bastava ligar e pedir.
"Ele não estava aqui", afirmou com certa irritação o jornaleiro Lucio Figueiredo, que diz ser amigo de infância de Viscome. "Chego todos os dias às 4 horas da manhã e saio às 8 da noite e não tinha ninguém aí." A banca de jornais dele fica em frente do escritório. Um outro comerciante, que preferiu não ser identificado, afirmou que o vereador foi visto pela Mooca na quarta-feira.
Desculpas - Um bom número de parentes de Viscome mora no bairro, onde o vereador é proprietário de uma série de imóveis. Ninguém quis tocar no assunto. "Sou irmã dele, não nego", disse uma mulher que se identificou como Olga. "Mas não quero falar nada."
Alguns moradores acreditam que ele pode ter estado em diversos locais do bairro, por conhecer muita gente lá. Além da família dele, parte dos parentes da mulher, Leopoldina Pereira Viscome, também mora na Mooca.
Pouca gente atreve-se a falar mal do vereador. Alguns desconversam e dizem apenas que não viram nada. Os que falam são breves e reticentes. "Quem conhece não vota, né?", comenta um morador.
A maior parte das pessoas ainda associa o vereador ao menino que cresceu nas ruas do bairro, conta histórias da infância e da adolescência de Viscome, diz que daria novamente o voto para ele e não acredita que o parlamentar possa estar envolvido em tanta confusão.
"Ele fez muita coisa pela Mooca", diz um comerciante. "Ajudou bastante gente, colocou lombadas." Esse morador descreve Viscome como uma pessoa esperta. "Ele era amigo enquanto tinha interesse", comentou. "Mas nunca deixou de pagar ninguém."
Muita gente refere-se a Viscome como um homem trabalhador, que começou a vida vendendo bananas e soube administrar os negócios. "Ele cresceu muito e depressa demais", diz, em tom elogioso, um senhor que mora há 75 anos na Mooca. "O Vicente começou a trabalhar com 11 anos."
O vereador Vicente Viscome, eleito pelo PPB e expulso do partido durante o tempo em que esteve foragido, exercia o seu segundo mandato como parlamentar. Aos 57 anos, conseguiu acumular patrimônio de R$ 16 milhões. Sua última proposta apresentada na Câmara, já aprovada, foi a instituição do Dia do Orgulho Gay, data que será comemorada, pela primeira vez, em 28 de junho.
O filho mais velho, Vicente Viscome Júnior, de 23 anos, contou que se está sentindo melhor pelo fato de o pai não estar mais foragido. Júnior afirmou que não mantinha contato com o pai havia algum tempo e achou que ele está bastante abatido. "Acho que perdeu uns cinco quilos." O filho do vereador não quis comentar se Viscome admitiria ou não o o recebimento de propina. "Ele vai falar o que tem de falar."


