Moradores da Cidade de Deus são ameaçados
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quarta-feira, 09 de abril de 1997
Agência Estado 
RIO - Policiais militares voltaram à Cidade de Deus, no Rio, na madrugada de ontem, para fazer ameaças aos moradores e tentar impedir o depoimento dos que foram submetidos a sessões de tortura por PMs em 23 de março. Segundo H.T., de 30 anos, os policiais procuravam obter informações sobre pessoas que possuem câmeras de vídeo. Eles estavam numa viatura e abordavam de forma agressiva quem estava na rua, disse H.T.. As cenas de violência, gravadas por um cinegrafista amador e que mostrou 11 moradores do bairro levando socos, pauladas e pontapés, foram levadas ao ar pela TV Globo na segunda-feira.
A viatura estacionou por volta das 4 horas em frente ao campo de futebol, próximo ao bloco quatro. De acordo com G.F.S., de 38 anos e um dos torturados em 23 de março, um dos policiais o revistou aos gritos de cadê as câmeras?. G.F.S estava acompanhado de um casal de amigos. Eles disseram que tinham nojo da gente, contou. A.L., de 19 anos, que saía para o trabalho quando também foi interceptado. Segundo o rapaz, um dos policiais teria dito que em casa de marimbondo não se mexe.
A prova do medo e da incerteza dos moradores do conjunto habitacional da Cidade de Deus pôde ser comprovado em duas reuniões realizadas à tarde no centro comunitário do bairro e das quais participou o governador Marcello Alencar. A primeira delas, com sete representantes de associações de moradores locais e o padre Messias Vitor, da paróquia São José. A segunda, que deveria ser com as 11 vítimas da truculência policial, contou apenas com a presença de E.S, de 18 anos, um dos esbofeteados pelos PMs. Estão todos em pânico, quem fala, sabe que corre o risco de morrer na primeira esquina, declarou Denair Martins Gonçalves, diretora da Associação dos Moradores da Cidade de Deus.
A dificuldade da Defensoria Pública de convencer as vítimas a prestarem depoimento aumentou à medida que vários moradores agredidos no dia 23 decidiram abandonar suas casas. A residência de G.B., o jovem de 19 anos que teve o tímpano esquerdo rompido depois de levar mais de 15 golpes dos policiais, estava vazia e os vizinhos afirmavam não saber para onde os parentes de G.B. teriam se refugiado.


