São Paulo, 29 (AE) - Os moradores da favela do Morro da Lua, no Jardim São Roque, em Campo Limpo, zona sul de São Paulo, culpam a Prefeitura de São Paulo, que está construindo uma escola de ensino fundamental no local, pelo deslizamento de terra que soterrou sete barracos e matou 12 pessoas.
Durante o processo de terraplenagem para a construção das bases da futura E.M.E.F. Francisco Reboulo, contam os moradores, toda a terra retirada pelos operários da Prefeitura era jogada em um desfiladeiro ao lado da construção. Nesse local
ocorreu o deslizamento na noite de ontem. Um primeiro deslizamento de terra já teria acorrido em março de 1998. Uma mulher, identificada por Branca, teria sido soterrada, mas sobreviveu.
"O aterro da escola não está correto, a terra não foi compactada, acabou gerando infiltrações e deu nisso", disse o tratorista Augusto Santos do Nascimento, de 39 anos.
Trincas- O mestre de obras Valentim Antonio Rodrigues, de 60 anos, está há quatro meses comandando as obras da escola e contou hoje à reportagem que quando chegou encontrou trincas e infiltrações em volta da escola e próximo ao local onde houve o deslizamento de terra. "Quando eu cheguei aqui a calçada já estava toda trincada e com várias infiltrações", revelou Rodrigues.
Hoje os engenheiros da Secretaria de Serviços e Obras colocaram uma lona plástica no local do deslizamento para evitar novas infiltrações de água e, consequentemente, mais deslizamentos. Além disso, será construído ainda nessa semana um bolsão de pedra de 1,80 metro para a contenção de terra na base do morro.
Culpa- Para o secretário de Obras e Serviços da Prefeitura, João Octaviano Neto, a obra não seria a responsável pelo acidente na favela. Segundo Neto, o deslizamento aconteceu por dois motivos: uma forte infiltração de água em toda a região e um corte na base do morro, provocada pelos próprios moradores que invadiram o local para construir os barracos.
"Os moradores nos contaram que houve um corte na base de 90° grau para a construção dos barracos", disse Neto. "Aparentemente a obra não contribuiu para o acidente." Segundo Neto, a base da escola está voltada para a Rua dos Catarinenses, atrás da rua onde aconteceu o acidente. A área da escola, segundo ele, é estável.
Levantamento- O Departamento de Edificações da Prefeitura de São Paulo (Edif) começou a fazer hoje um levantamento do histórico da construção da escola que, segundo a Secretaria Municipal da Educação, está orçada em R$ 1,4 milhão. O objetivo principal desse levantamento é saber qual seria a responsabilidade da obra no acidente no Morro da Lua.
Como a área do acidente pertence a Eletropaulo, a Secretaria de Serviços e Obras informou hoje que não tem determinação legal para fazer qualquer obra ou manutenção na região, apenas tomar medidas de emergência.
Vende-se - A dona de casa Míriam de Araújo Campos, de 40 anos, é separada, mãe de cinco filhos e avó de uma criança de três anos. Todos moram em uma casa de um cômodo, ao lado da escola em construção, à beira do precipício. Mesmo correndo risco de vida ela diz que só sai por "R$ 500,00". "Eu não tenho para onde ir, vou morar aqui na beira do morro até aparecer alguém para comprar a minha casa", afirma Míriam. "Fiquei assustada sim, mas essa é a sina de pobre: viver na beira de barranco."