Moradores culpam obra do metro por alagamento
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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2000
Por Maurício Moraes 
São Paulo, 29 (AE) - Pessoas que moram nas proximidades do Córrego Morro do S, na Vila Andrade, zona sul de São Paulo, responsabilizaram o governo do Estado pela enchente que atingiu a região ontem (28). A obra de construção da linha 5 do metrô (Capão Redondo-Largo 13) foi apontada como a responsável pelo transbordamento do rio, que passa ao lado da Avenida Carlos Caldeira Filho. "Moro há 34 anos aqui e nunca tinha visto algo deste tipo", afirmou a costureira Marinalva Santos Silva, de 37 anos.
A água invadiu sua casa na Rua Joaquim Nunes Teixeira e atingiu 1,5 metro de altura. "Houve enchentes em que tive tempo de salvar as minhas coisas", disse. "Mas desta vez, foi impossível." Para Marinalva, só há uma explicação para a tragédia: a obra do metrô. Ela acredita que a construção ajudou a represar o córrego, agravando a enchente. A moradora perdeu roupas, móveis, objetos pessoais e aparelhos eletrônicos.
A massoterapeuta Maria Izabel Sousa, de 38 anos, estava desolada. Na sua residência, na Rua São João do Pernambuco, o nível da água também chegou a 1,5 metro de altura ontem. "Perdi tudo", lamentou. Há três anos e meio no local, ela lembrou-se apenas de uma enchente na qual a rua ficou submersa. Na ocasião, as casas não ficaram alagadas. "Só pode ter sido a obra do metrô", reclamou. "Estão mexendo no córrego e isso deve ter segurado a água."
Sorte - O Córrego Morro do S também invadiu a casa da jornalista Carla Bartz, de 31 anos. Por sorte, a família inteira estava no local na hora da enchente. "Conseguimos salvar o que estava no chão", afirmou. "Erguemos até a geladeira." De acordo com Carla, a tragédia que atingiu as pessoas do bairro seria menor se não houvesse a obra da linha 5. "Para resolver um problema, o Estado causou outro."
Um dos pilares de sustentação da via suspensa do metrô foi construído em cima do córrego, próximo do cruzamento da Avenida Carlos Caldeira Filho com a Rua Joaquim Nunes Teixeira. Segundo os moradores, o enorme bloco de concreto teria ajudado a represar a água. "Também levantaram um pouco a pista de asfalto naquele trecho", disse Carla.
Na concessionária Fiat Projeto 5, que fica no encontro da Avenida Giovanni Gronchi com a Carlos Caldeira Filho, cerca de 300 veículos foram atingidos pela cheia. A água cobriu todo o pátio da empresa. "Ainda levará tempo para avaliarmos o prejuízo que tivemos", afirmou um dos sócios, Ernesto Colombo. "Sabemos que todos os carros foram danificados."
Seguro - Colombo estava trabalhando no local quando o Córrego Morro do S transbordou. Ele teve de fugir para o escritório, no andar superior, para evitar as águas, que acabaram derrubando um dos muros. O proprietário está esperando uma resolução da seguradora para tomar uma atitude. Colombo não descartou a possibilidade de entrar na Justiça, contra o Estado, no caso de a apólice não cobrir todos os danos. Ele também acredita que a construção da linha 5 ajudou a agravar o problema.
O prefeito Celso Pitta (PTN) afirmou hoje que o governo do Estado está construindo a obra sem autorização da Prefeitura. "Não houve esse aval", declarou. Segundo ele, a construção da linha do metrô causou um represamento inadequado na região. "Há que se ver a responsabilização da empreiteira para saber se agiu por conta própria ou por ordem do contratante, a CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos)."
De acordo com o secretário dos Transportes Metropolitanos, Cláudio de Senna Frederico, a Secretaria de Vias Públicas da Prefeitura autorizou a execução da obra em janeiro do ano passado. "O prefeito deve estar mal informado", disse. A CPTM está subordinada à Secretaria de Estado dos Transportes Metropolitanos. "Subimos a altura de 316 centímetros, recomendada na ocasião, para 390 centímetros." Segundo ele, chuvas como as de ontem ocorrem a cada 50 anos. Técnicos da Secretaria de Vias Públicas encontraram hoje um tronco dentro da galeria, o que contribuiu para as cheias. //FIM/RGR/REDAEGER/


