Moradores apontam dificuldades para ir à marcha
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terça-feira, 24 de agosto de 1999
Por Rosa Bastos 
Brasília, 25 (AE) - Lavando roupa no tanque, na cidade-satélite de Samambaia, a 40 quilômetros do centro do poder, das avenidas amplas e dos prédios imponentes, a dona de casa Aparecida Marques até ouviu falar na Marcha dos 100 Mil, mas não vai. "Você fala daquele negócio que deu na TV ainda agora?", pergunta. "Eu é que não vou me abalar daqui pra canto nenhum!" No momento, Aparecida tem outras preocupações. Cuidar das duas filhas, de 3 e 4 anos, é a menor delas. "Esse terreno é invadido e tudo em que penso, noite e dia, é que podem expulsar a gente."
A vizinha Cláudia Rodrigues Nascimento, mãe de quatro crianças, conta por que não podem afastar-se dos barracos. "Se sai, quando volta não encontra nada: nem sapato, nem roupa, nem botijão de gás." A situação é tão grave que Cláudia não sai de casa nem para vacinar os filhos. Pede a uma comadre para levá-los ao posto. "O povo aqui é assim: se vai passando e vê uma coisa que agrada, pega."
Mesmo que pudesse, ela não iria à marcha. "O que vamos fazer lá, quem somos nós?", diz. "Isso aí é para pessoas mais importantes." Em Samambaia, que tem de mansões a casebres e uma população de 250 mil pessoas, os pequenos furtos são um problemão. Mas, além de segurança, emprego, comida e de um hospital "pelo amor de Deus!", a maior reivindicação dos moradores é asfalto.
Uma poeira vermelha, que sobe em redemoinhos, atiçada pelo vento, penetra nas casas, nos móveis, no nariz, nos olhos. Para onde se olhe, onde se vá, há muita poeira. "Mandamos raspar o barro, tiramos caminhões dessa terra solta para substituir por cascalho", conta o administrador regional da cidade, Eurípedes Leôncio Carneiro.
Para se chegar à periferia de Brasília, pega-se a BR 060, que liga Brasília a Goiânia, passa-se por Candanganlândia, pelo supermercado Planaltão, pelo Riacho Fundo 1 e 2, outras cidades satélites. "É chão", resume José dos Santos, 41 anos de idade, "operador de máquinas pesadas e mecânico a óleo e gasolina", como se apresenta. Além dessas habilidades, Santos, baiano de Crisópolis, há 40 anos em Brasília, aprecia o uso de estatísticas. Segundo ele, "90%" da população local não vão à marcha por falta de condições financeiras. Seria preciso esperar um ônibus por 15, 20 minutos e fazer uma viagem de quase uma hora. "Acho que 80% nem sequer sabem dessa coisa aí." O pintor Benilson Pires, de 24 anos, soube da marcha pelo noticiário que viu numa TV Philco, preto e branco e empoeirada. "Vem gente de toda parte, de vários países, vai ser uma algazzarra", acredita.Talvez até o estudante Jean-Carlos Reis Satil, que cursa a 7a. série no Centro de Ensino, na Quadra 519, apareça na manifestação. "Temos de fazer alguma coisa", comenta. "O homem está vendendo tudo do Brasil; daqui a pouco vai vender nós também." "Em 30 anos de Brasília não consegui nada, só filho", conta o carroceiro Wellington Ferreira Barros, pai de cinco. Há três meses, desde que roubaram o cavalo dele, a situação ficou pior. "Fiquei com a carroça do varal pra riba." Antes, fazia fretes nas redondezas, dava para tirar R$ 30,00 por semana. Sem o cavalo, decidiu vender a carroça.
Manifestação, para ele, significa invadir terrenos. "Já participei de quatro invasões mas sempre acabei expulso." - Marcha de quê? - surpreende-se a cearense Raimunda Azevedo, uma das premiadas com um lote do governo do Distrito Federal, na Samambaia, e construiu a sua casa com três quartos, sala, copa, cozinha e banheiro azulejado. "Só falta o asfalto mas já está quase chegando", anima-se. A vizinha, Carmen de Souza Cruz que, como ela, vende cosméticos a prestação, não sabia da marcha: "A TV fica ligada direto no SBT", conta. "Minha filha vê desenhos
depois Chiquititas, A Usurpadora e o Ratinho." Para Carmen, se Ratinho fosse presidente do Brasil, a situação seria outra.


