São Paulo, 24 (AE)- Se os governos do Brasil e Argentina não conseguirem fechar acordo para o regime automotivo do Mercosul as montadoras vão ter que reavaliar toda a operação na região. A informação é de fontes do setor. Nenhum executivo fala abertamente sobre o assunto. Mas, sem acordo, as empresas da cadeia automotiva vão abandonar a idéia de bloco e o critério para instalar as linhas de produção será custos.
Nessa briga, o Brasil leva vantagem. Os argentinos endureceram nas reuniões da primeira rodada de negociações da equipe do governo De la Rúa com os brasileiros porque sabem que a Argentina está em desvantagem na comparação de custos de produção. "Sem dúvida alguma eles têm medo que nós desloquemos as linhas para o Brasil", disse uma fonte da indústria.
Segundo os dirigentes das montadoras, a situação estaria muito pior se a ausência de acordo resultasse na taxação dos veículos e peças no intercâmbio comercial Brasil-Argentina. Ao estender o acordo transitório ao longo de todo o primeiro semestre, os governos dos dois países deram à indústria tranquilidade para manter a divisão das operações, mesmo que algumas linhas já tenham sido transferidas para o Brasil.
O que preocupa o governo argentino é a queda do tamanho do seu superávit na balança comercial automotiva com o Brasil. A diferença entre exportações e importações de carros e peças no intercâmbio com o Brasil foi de US$ 387,49 milhões em 1997 em favor da Argentina. No ano seguinte, o superávit argentino foi para US$ 594,4 milhões. No ano passado caiu para US$ 123,6 milhões.
Os representantes da indústria automobilística, que comandam do Brasil todos os negócios no Mercosul, não querem que o acordo inclua excesso de monitoramento na balança comercial dos dois países. Eles já pediram, em contatos com o governo brasileiro, a necessidade de criar mecanismos de flexibilidade. Isso permitiria que a diferença na balança comercial entre os dois países beneficie o Brasil. Na primeira rodada de negociações, a delegação argentina bateu de frente na questão dos incentivos fiscais. Embora essa parte da discussão não tenha sido detalhada à imprensa, a reabertura de inscrições para um novo regime automotivo especial para as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, criado pelo governo brasileiro para colocar a fábrica da Ford na Bahia, foi um dos pontos levantados pelos argentinos para argumentar que no Brasil o setor automotivo recebe mais benefícios.
Foi por isso que as partes decidiram contratar uma empresa de auditoria para averiguar se um dos dois países concedeu mais incentivos às montadoras para instalação de fábricas de veículos. Com o levantamento dos incentivos, os negociadores poderão deliberar por compensação em favor do país em desvantagem.
Depois de sete meses de infrutífera negociação entre Brasil e o governo de Carlos Menem, os dois países vão levar agora mais 45 dias para contratar a consultoria. Esta empresa terá prazo de mais dois meses e meio para elaborar a pesquisa. A partir daí, os dois governos estipularam mais 90 dias para concluir as negociações.

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