São Paulo, 22 (AE) - Após dois anos de resultados dramáticos, a indústria automobilística retoma o fôlego e registra três meses consecutivos de aumento de vendas. Atento a essa recuperação, seguida também por outros setores da economia, o governo parece pouco disposto a bancar o projeto de renovação da frota, que prevê incentivos fiscais para a substituição de veículos velhos.
A avaliação é de que o mercado está reagindo por conta de melhores perspectivas econômicas e não haveria necessidade de renúncia fiscal. Nem mesmo o argumento da manutenção de empregos convence neste momento. A melhora das vendas, aliada ao aumento das exportações, está levando algumas montadoras a contratar pessoal ou ampliar a jornada de trabalho.
A produção de carros, comerciais leves, caminhões e ônibus no trimestre já supera a do ano passado em 27,3% e as vendas estão 13,5% maiores. Só no segmento de automóveis e picapes (objetos do programa de renovação) somam 302.640 unidades vendidas, 13,9% mais do que em igual período de 1999, quando o movimento nas lojas despencou por causa do impacto da desvalorização do real. Na comparação com o último trimestre de 1999, que já apontava que a situação do País não era tão drástica quanto a prevista inicialmente, os resultados no segmento foram ainda melhores: cresceram 19,5%.
Por conta disso, a Volkswagen, a Fiat e a General Motors convocaram os funcionários para trabalho extra em abril durante os sábados ou por meio da ampliação da jornada semanal. A GM contratou 400 pessoas, sendo 300 por tempo determinado. A Mercedes-Benz, que registrou um aumento de 42% nas vendas de caminhões, também empregou 300 trabalhadores para os próximos seis meses.
Não é só o mercado de carros novos que está aquecido. Os negócios com modelos usados cresceram 46% no trimestre, os importadores independentes (sem fábricas no País) venderam 60% mais e os fabricantes de motocicletas comemoram resultados 18,5% melhores que no ano passado.
Apesar do bom desempenho apresentado até agora, a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) insiste em manter sua previsão feita no início de janeiro. O presidente da entidade, José Carlos Pinheiro Neto, calcula que a produção alcançará 1,5 milhão de unidades - 11% mais que em 1999 - e as vendas internas 1,2 milhão de automóveis e comerciais leves.
Mas entre os próprios fabricantes há quem aposte em números um pouco melhores. O diretor-comercial da Fiat, Lélio Ramos, acha que as vendas chegarão a 1,35 milhão de unidades e a produção "deve ultrapassar 1,5 milhão de veículos para atender à demanda de exportações, que também vem crescendo."
O professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e estudioso do setor automobilístico, José Roberto Ferro, diz que o cenário de 2000 é favorável para as montadoras na comparação com o ano anterior, mas lembra que o setor está longe de recuperar os resultados de 1997, quando atingiu a produção recorde de 2 milhões de veículos, número que despencou para 1,58 milhão de unidades e 1,34 milhão de unidades nos dois anos seguintes.
"Os sinais de recuperação são claros, há maior confiança do consumidor, os juros estão baixando e o medo do desemprego é menor, mas não podemos ser humildes e nos contentarmos com uma produção de 1,5 milhão de veículos se já conseguimos chegar aos 2 milhões", diz Pinheiro Neto.
Ele ressalta que a renovação da frota não tem como objetivo único aumentar as vendas, mas retirar das ruas carros velhos, inseguros e poluidores. Segundo seus cálculos, o projeto resultaria na venda extra de 140 mil veículos em um ano. O programa prevê a entrega de bônus para o dono do carro com mais de 15 anos que adquirir um mais novo e entregar o velho para ser reciclado.
O desconto seria de R$ 1,8 mil se a troca fosse por um modelo a gasolina e de cerca de R$ 3 mil para uma versão a álcool. Os governos federal e estaduais participariam com a redução do IPI e do ICMS e as montadoras e revendas com descontos extras e custos da reciclagem. O presidente Fernando Henrique Cardoso ficou de dar resposta sobre a participação do governo federal até o fim do mês. Há chances de o incentivo ser liberado somente para modelos a álcool.

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