Modernidade ameaça prato típico brasileiro
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sábado, 22 de março de 2014
Carolina Avansini<br> Reportagem Local 
Londrina - Na casa da auxiliar de limpeza Angélica Bispo de Oliveira Silva, de 37 anos, não faltam arroz e feijão. Responsável pela alimentação dos quatro filhos, de uma neta e do marido, ela faz questão de oferecer todos os dias, no almoço e no jantar, esta "dobradinha" tão tradicional no prato do brasileiro. Ao preservar a tradição, Angélica está, também, preservando a saúde da família, pois a combinação é rica em nutrientes essenciais para os seres humanos.
O hábito de comer arroz e feijão todos os dias, porém, parece estar cada vez menos presente no dia a dia de parte da população, que por comodidade e influência das propagandas, prefere consumir alimentos industrializados. Especialistas alertam que, ao fazer a troca, brasileiros contribuem para aumentar a prevalência da obesidade e a predisposição para doenças crônicas como hipertensão e diabetes.
A Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indica que em 2002/2003, a quantidade média per capita adquirida de arroz polido foi de 24,5 quilos, caindo para uma média de 14,6 quilos em 2008/2009, com queda de 40,5% no consumo. As aquisições médias de feijão passaram de 12,4 quilos, em 2002-2003, para 9,1 quilos no final da década passada, com redução de 26,4%. O grupo dos cereais e das leguminosas, que engloba a dupla mais famosa da alimentação dos brasileiros, apresentou uma redução de aquisição de 19,4% entre as duas pesquisas e está entre os três grupos com as maiores quedas na média das aquisições.
As informações são da nutricionista Carolina Silva, do site Fechando o Zíper (www.fechandoziper.com), que realiza avaliação de produtos através da informação contida nos rótulos, mostrando dados nem sempre passados de forma clara pela indústria de alimentos. "Os resultados da análise da POF mostram que o consumo alimentar combina a dieta tradicional brasileira à base de arroz e feijão, que apresenta boa qualidade nutricional, com alimentos de teor reduzido de nutrientes e de alto teor calórico", afirma.
A nutricionista Ana Paula Bortoletto, pesquisadora do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas e Nutrição em Saúde (Nupens) da Universidade de São Paulo (USP) acrescenta que, em 2002/2003, a quantidade de arroz e feijão ingerida pelos brasileiros representava 22,8% das calorias consumidas diariamente, caindo para 20,6% em 2008/2009. Em artigo publicado no ano passado, ela relata que no caminho inverso, a contribuição calórica de produtos prontos para consumo teve aumento expressivo, passando de 23% para 27,8% nos seis anos entre as duas pesquisas. Nas regiões metropolitanas, ao longo de pouco mais de 20 anos, entre 1987 e 2009, a contribuição calórica dos industrializados aumentou de 20,3% para 32,1%. Já os chamados alimentos ultraprocessados, cujo consumo não é recomendado pelo novo Guia Alimentar para a População Brasileira, aumentaram de 18,7% para 29,6%.
A pesquisadora explica que os produtos prontos para consumo apresentam elevada densidade energética (quantidade de calorias por peso) e são tipicamente ricos em açúcares e gorduras e pobres em fibras, o que constitui fatores de risco para a obesidade. "O aumento do consumo destes produtos pode ser uma das explicações para a tendência crescente de prevalência de excesso de peso na população brasileira", avalia, citando que o percentual de indivíduos adultos com excesso de peso aumentou de 24% em 1974/1975 para 49% em 2008/2009 no País, enquanto a prevalência da obesidade triplicou no mesmo período.
A nutricionista Samantha Peixoto, do Fechando o Zíper, reforça que grande parte dos alimentos industrializados é composta por altas quantidades de sódio e de calorias provenientes principalmente de açúcares e gorduras. "Esses nutrientes não podem ser consumidos em excesso, caso contrário, aumentam o risco para o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, tais como a obesidade, o diabetes, a pressão alta e o aumento do colesterol", diz.
Ela alerta, ainda, para o risco de submeter crianças a este tipo de dieta. "No Brasil, o excesso de peso em crianças preocupa, pois uma a cada três entre 5 e 9 anos estão acima do peso recomendado", observa.


