São Paulo, 01 (AE) - Dentro dos próximos 15 dias deverá estar pronta a modelagem de venda do controle da Companhia Petroquímica do Nordeste (Copene). Essencialmente, serão revelados quais ativos da Odebrecht, do grupo Mariani e do ex-Banco Econômico serão vendidos e por qual valor. Esses três grupos têm 56% do controle da Copene. Fontes envolvidas no processo de venda afirmam que, até o momento, a única certeza é de que os ativos serão comercializados em bloco, por meio do consórcio formalizado entre os três grupos - sendo o Econômico pelo interventor Banco Central -, em dezembro passado.
Ou seja, não haveria como o grupo Ultra estar amarrando qualquer negociação para a compra de ativos não definidos e, por isso mesmo, sem cotação. A intenção do grupo Ultra de adquirir o controle da Copene tem sido vista por alguns importantes executivos do setor petroquímico como negócio duvidoso, em termos de renda e retorno, para a economia nacional. O presidente do grupo Ultra, Paulo Cunha, solicitado a falar sobre o assunto, não quis se manifestar.
Conforme as regras do BNDES, os ativos não podem ser negociados antes que se faça a modelagem de venda. Caso o comprador necessite do apoio financeiro do banco público, os ativos em questão passarão por análise, que inclui estudos financeiros, sobre o mercado, tecnologia, preços e garantias. No BNDES, esse trabalho é realizado pelo segundo escalão. Esse degrau da hierarquia abriga gerentes e chefes de setor, e não está sendo mexido na reformulação da diretoria do banco, a ser promovida nos próximos dias pelo presidente Andrea Calabi.
No primeiro escalão, sai uma figura-chave da reestruturação petroquímica, o diretor das áreas operacionais de comércio, serviço e indústria, Eduardo Rath Fingerl. Em seu lugar, passa a negociar, diretamente, o vice-presidente do banco, José Mauro Carneiro da Cunha. No BNDES, ninguém comenta o assunto. Mas fontes do mercado dizem que justamente o segundo escalão - aquele que faz a análise decisiva - do banco teria argumentos contra a compra da Copene pelo Ultra.
O braço do grupo Ultra na petroquímica é representado apenas pela Oxiteno. Instalada no pólo petroquímico de Camaçari, a indústria tem como principal atividade a produção de óxido de eteno. Fabrica 283 mil t/ano do produto, sendo a única unidade de óxido de eteno no território nacional - o que, para seus críticos, configura monopólio. Mas o mais importante é que a produção não requer mais que 10% do eteno processado pela Copene.
O uso limitado do eteno pelo grupo interessado na compra do controle da Copene, segundo fontes do setor, não estimularia novos investimentos. Como na ampliação da oferta do insumo eteno
já planejada para um salto das atuais 1,2 milhão t/ano para 1,8 milhão t/ano, nos próximos 24 meses. O BNDES estaria emprestando ao Ultra a maior parte do valor pedido pela Copene, mas isso não garantiria qualquer ativo novo nem geração de empregos alavancados pelo grupo para a central após a aquisição.
Tais comentários são feitos por gente que acompanha o setor petroquímico e com ele está envolvida há mais de 20 anos. Eles duvidam que a postura de não arriscar e não investir em petroquímica do grupo Ultra vá se alterar de uma hora para outra. A venda da Copene para o Ultra, embora o governo já tenha se mostrado disposto a desembolsar o quanto for necessário para ajudar o grupo, não é vista como bom negócio. Isso não quer dizer que a central poderia ser vendida para qualquer outro grupo.
Questionado sobre a reestruturação da petroquímica nacional, o presidente da Rhodia América Latina, José Carlos Grubisich, afirmou que o movimento tornará as empresas mais competitivas e que retira custos do sistema. Grubisich disse, semana passada, que a multinacional não foi chamada a dar opinião sobre a venda da Copene para qualquer um de seus fornecedores. O grupo Ultra fabrica e fornece vários insumos utilizados pela Rhodia no Brasil.
A Dow Química, também candidata declarada à compra da Copene, ao adquirir as operações da Union Carbide em todo o mundo em 1999, passou, automaticamente, a ser a maior produtora de óxido de eteno do planeta. E a coincidência com o Ultra pára por aí. A multinacional norte-americana tem capital próprio para aquisição do controle da central. Em Camaçari, produz 45 mil t/ano de poliestireno (PS, o plástico dos descartáveis) e em São Paulo, mais 102 mil t/ano do mesmo plástico.
No município baiano de Candeias, produz 405 mil t/ano de cloro e de derivados, como as 415 mil t/ano de hidróxido de sódio (a base de cloreto de sódio), insumo utilizado pelas indústrias têxtil, de alumínio, papel e celulose, entre outras. A Dow possui, ainda, por meio da sua subsidiária Primera, 25,23% do controle da Petroquímica Triunfo, no pólo petroquímico gaúcho. A capacidade instalada da Triunfo é de 150 mil t/ano de polietileno de baixa densidade, o plástico das embalagens flexíveis.
Outros grupos estrangeiros supostamente interessados - até agora, nenhum deles colocou abertamente as cartas na mesa - na compra da Copene são a Basf e a Repsol/YPF. A Basf já anunciou novos investimentos em poliestireno no Brasil. Já a Repsol/YPF deve fechar o acordo para troca de ativos com a Petrobras, ainda este mês.
O grupo espanhol já expôs seu interesse pela área petroquímica brasileira e pela aquisição de refinarias. Atividades que, junto com a prospecção de petróleo e as distribuidoras de derivados, fechariam o ciclo de uma indústria petrolífera constantemente rentável - o que valoriza o setor de petróleo é seu poder de agregar valor ao longo da cadeia produtiva. A Repsol não possui ativos de petroquímica em qualquer outro lugar do mundo.
Para o governo brasileiro, a melhor saída para o setor não passa pelo aporte das estrangeiras, porque a reestruturação por ele proposta diz respeito à petroquímica nacional. Para o setor em geral, os estrangeiros são bem vistos. Desde que falem a mesma linguagem nos negócios.

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