Moçambique agora tem motivo para encarar a epidemia de aids
Maputo, 15 (AE-AP) - Em um país onde as vítimas da epidemia da aids são mantidas distantes, a notícia da morte foi considerada bombástica. O anúncio necrológico publicado pela família no jornal Notícias afirma que Boaventura Machel, irmão do herói da independência e primeiro presidente de Moçambique, fora "vítima da aids".
Em Moçambique, dificilmente uma família, mesmo privadamente, assume uma morte em consequência da aids. Os ativistas afirmam que esse tipo de comportamento contribui para o atraso nacional sobre a epidemia. Cerca de um em cada sete moçambicanos está infectado com o vírus HIV, que é o causador da aids.
Assumir não é uma tarefa fácil na áfrica subsaariana. No ano passado, por exemplo, uma mulher foi espancada até a morte na áfrica do Sul depois de ter falado publicamente que era soropositivo durante o Dia Mundial da Aids.
Apenas poucas personalidades assumiram a doença até agora na região. O silêncio em Zimbábue foi quebrado em 1996, quando Johua Nkomo, que liderou a independência do país da Grã-Bretanha
reconheceu que seu filho Ernest morrera de aids. E na áfrica do Sul, um conhecido juiz recentemente anunciou ter aids, segundo ele em um esforço para acabar com o estigma da doença.
O anúncio da morte de Machel, feito em 27 de novembro, causou desconforto na própria família da vítima. Depois de retornar do funeral em Maputo, a viúva de Machel disse que não gostaria que a notícia fosse publicada. Segundo ela, sua cunhada, Graça Machel - viúva do ex-presidente Samora Machel e atualmente casada com Nelson Mandela - foi quem pagou o anúncio no jornal sem consultá-la.
Graça Machel é conhecida em Moçambique por seu ativismo na campanha contra a aids. Ela não retornou telefonemas feitos pela reportagem da AP ao seu escritório em Johannesburgo para comentar a informação.
Em Moçambique e em muitos países vizinhos, as crianças com aids são expulsas das escolas. Adultos com o vírus vêm sendo demitidos de seus empregos. Amigos somem quando ficam sabendo que alguém está com a doença.
"A aids não é como a malária ou o câncer. Há a crença de que se você está com aids é porque deve ter feito alguma coisa errada", disse Jill Shummann, do grupo norte-americano Population Services International, que promove um trabalho de prevenção da aids em Moçambique.
O primeiro-ministro Pascoal Mocumbi, que é médico clínico, está frustrado pelo fato de seus compatriotas ignorarem a crise da aids em seu país e conclama as famílias das vitimas da doença a revelarem a causa da morte.
"As pessoas nunca dizem que seus parentes morreram de aids"
reclamou ele durante uma entrevista coletiva realizada em julho. "Eles dizem que foi por causa de um problema no fígado, tuberculose ou alguma outra infecção".
O índice de infecção em Moçambique é menor que em outros países vizinhos, mas está crescendo assustadoramente, aproximadamente duas vezes a cada dois anos. Cerca de 14,5% dos moçambicanos adultos estão infectados com o HIV, comparado com 40% na região da áfrica do Sul que faz fronteira com Moçambique.





