Paris, 22 (AE) - Esses trinta ou quarenta mil albaneses que se dirigiram da capital do Kosovo Pristina para a cidade de Mitrovica, no norte do Kosovo, são o símbolo de dois fracassos. Em primeiro lugar, o fracasso da batalha desencadeada em março do ano passado, pela OTAN, para proteger a província sérvia de Kosovo contra as violências que lhe infligiam o governo sérvio de Belgrado, dirigido por Solobodan Milosevic. E o segundo fracasso foi o dos esforços conduzidos pela comunidade internacional para conseguir que, depois da guerra, o Kosovo se mantivesse uma zona multicultural e multipolítica, metade sérvia e metade kosovar, e continuasse parte integrante da Sérvia.
Um mapa geográfico explica tudo isso. A província sérvia do Kosovo (hoje sob o controle da ONU e da KFOR) tem como limites: a oeste, a Albânia; ao sul, a Macedônia; e, ao norte, a ex-Iugoslávia (capital Belgrado). Nesse Kosovo há principalmente duas cidades: no centro, a capital Pristina. No norte, e portanto próximo à ex-Iugoslávia, Mitrovica.
A cidade de Mitrovica é dividida em duas zonas: no norte, a zona habitada pelos sérvios (a partir de então pouco numerosos no Kosovo). No sul, a zona habitada pelos kosovares (ou albaneses).
Entre esses dois bairros, o rio Ibar, que separa as duas comunidades (sérvia e dos kosovares). Esse rio fronteiriço tem uma ponte que, há meses, constitui "o nódulo de fixação" dos rancores entre o povo sérvio e o povo kosovar. Diariamente, incidentes opõem os sérvios aos kosovares, e a força internacional (a KFOR) se esforça para se interpor entre os adversários. Essa ponte que separa (ao contrário da função de uma ponte bem construída que justamente visa a reunir) mereceu o nome de "ponte da discórdia".
Foi essa Mitrovica que assistiu, ontem, à manifestação de milhares de albaneses durante o dia inteiro, tendo a KFOR decidido não se opor à torrente. Na verdade, a KFOR presumiu bem: de modo geral, os albaneses foram pacíficos e alguns gases lacrimogêneos lançados pela KFOR foram suficientes para acalmar os jovens mais exaltados.
É claro que a batalha de ontem foi apenas um "tiro de canhão" e que os kosovares albaneses voltarão ao ataque de Mitrovica com mais determinação (a metade do Kosovo ainda está à sombra de seu exército extremista anteriormente clandestino, o UCK, e a metade à sombra de grupos mafiosos).
Ora, Mitrovica ocupa a posição que já dissemos, ou seja, está no centro do combate entre sérvios e kosovares. Para os sérvios do Kosovo, que vivem momentos duros desde o final da guerra, o objetivo é de oficializar a separação de Mitrovica entre sérvios e kosovares, pois essa divisão, controlada pela KFOR, protege a muito pequena e muito infeliz minoria sérvia que continua no norte do Kosovo, principalmente em Mitrovica. Os kosovares exigem exatamente o contrário do que demandam os sérvios. Eles sonham limpar a área de Mitrovica de seus habitantes sérvios, de modo a constituir enfim um Kosovo puramente albanês, considerando que, no final, o Kosovo pretende tornar-se independente e, talvez, reconstituir com a Albânia vizinha uma "Grande Albânia".
Esses planos que se revelam, hoje, com muita clareza não podiam ser previstos desde o final da guerra da OTAN no Kosovo. Mas, após a guerra, a comunidade internacional não quis considerá-los. Ela se prendeu à ficção de uma coexistência pacífica entre as duas comunidades, sérvia e albanesa, com a permanência da província do Kosovo como parte integrante da Sérvia.
Por parte dos ocidentais foi um belo sonho e uma terrível ilusão. A guerra latente, às vezes mortífera, que continua nos arredores de Mitrovica o demonstra: sem dúvida, será preciso "com muita dor" reconhecer essa divisão efetiva do Kosovo. Alguns observadores consideram inclusive que o foco de infecção de Mitrovica já está tão inflamado que seria prudente homologar essa divisão efetiva desde agora; seria um meio de evitar outros acertos de contas entre duas populações que já não se gostavam muito antes da guerra e que se odeiam desde que ela acabou.

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