Mistério envolve assassinato de Arkan
Belgrado, 17 (AE-AP) - Um grande mistério envolve o assassinato na noite de sábado no saguão de um luxuoso hotel da capital iugoslava do sérvio Zeljko Raznatovic ou Arkan (gato selvagem), procurado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) por crimes de guerra e por países europeus, entre os quais Alemanha, por assalto a bancos e atentados na década de 70.
Conhecido também como "rei dos massacres" ou "homem das lágrimas de crocodilo", Arkan, de 47 anos, um espião do serviço secreto da antiga Iugoslávia comunista, liderou a Guarda Voluntária Sérvia, também chamada de Tigres Sérvios, um dos grupos paramilitares mais cruéis e desumanos de toda a guerra civil na ex-Iugoslávia (entre 1991 e 1995).
Sob o comando e incentivo de Arkan, o grupo sequestrou, torturou, violou e executou sumariamente centenas de civis croatas e muçulmanos nos conflitos da Croácia e da Bósnia-Herzegovina e, posteriormente, também em Kosovo. Ele era acusado pelo TPI, entre outros crimes, do massacre de 250 homens croatas num hospital da cidade de Vukovar.
Arkan e seus homens eram temidos também pelo saque, pilhagem e destruição de bens e casas das vilas e povoados por onde passavam. A guerra fez dele um dos homens mais ricos da Sérvia. Era dono de uma rede de cassinos, confeitarias e clubes noturnos.
Tinha interesses nas áreas de construção civil e era dono de uma equipe de futebol, o Obilic (de Belgrado). Os jogadores ficaram sabendo da morte do chefe no Chipre, onde haviam chegado para amistoso. Eles são esperados ainda hoje em Belgrado a fim de acompanhar o enterro, no Novo Cemitério (centro da cidade), na quinta-feira.
Em 1992, Arkan fundou o Partido da Unidade Sérvia e elegeu-se deputado - cargo que ocupou durante um ano.
Arkan era considerado um homem de confiança do presidente Slobodan Milosevic, que teria criado os Tigres Sérvios para executar o serviço sujo da limpeza étnica.
A quem interessaria a morte de Arkan? É a grande pergunta feita pela imprensa sérvia. Os líderes oposicionistas - entre os quais Vladan Batic, da Nova Democracia - acham que o presidente Slobodan Milosevic está envolvido no crime "que nunca será apurado".
Arkan era homem de confiança de Milosevic, mas ao final da guerra da Bósnia, segundo o Times de Londres, começou a sentir-se ameaçado por saber demais. Seguiu então para Montengro (pequena república que, com a Sérvia, forma a Iugoslávia), onde apoiou a candidatura do presidente Milo Djukanovic, ferrenho adversário de Milosevic, que mantém boas relações com o Ocidente. Mas não conseguiu convencer o líder montenegrino a lhe dar asilo e proteção.
O Ministério do Interior iugoslavo negou qualquer envolvimento do Estado no assassinato de Arkan. Mas exigiu silêncio absoluto das testemunhas e funcionários do Hotel Intercontinental, onde ele foi morto com três tiros na cabeça.
Outra hipótese levantada é a de queima de arquivo. Advogados de Arkan (que sempre rejeitou as acusações) teriam entrado em contato com o TPI dando a entender que ele poderia colaborar com a Justiça internacional (que também acusa Milosevic de crimes de guerra) como testemunha.
Um amigo (ou ex-amigo) de Arkan, o advogado ítalo-britânico Giovanni Di Stefano, detido recentemente na Itália, preparava-se para representar os interesses de Milosevic perante o TPI. Não está afastada também a possibilidade de um ajuste de contas mafioso. Arkan casou-se recentemente com a cantora pop Svetlana Ceca Velickovic.





