Missa afro-brasileira quebra preconceitos
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domingo, 27 de maio de 2007
Vanessa Navarro<br>Reportagem Local 
Se Deus não distingue cor, gênero ou classe social, a igreja deveria ser espaço privilegiado de igualdade. Entretanto, em pleno século 21, uma missa católica conduzida com elementos da cultura africana ainda causa espanto num país multirracial como o Brasil. Não é à toa que a celebração, acompanhada por cerca de 200 pessoas no Jardim São Jorge (Zona Norte), na manhã de ontem, foi apenas a segunda do gênero em Londrina.
Celebrada no pátio da Escola Municipal Atanázio Leonel - o São Jorge ainda não tem uma capela própria - a ''Missa de Celebração Enculturada da Palavra'' reproduziu todos os ritos católicos que marcam as missas tradicionais. A diferença estava na decoração, nas vestimentas, na música e, de certa forma, na energia do evento, verbalizada na frequente evocação da palavra ''axé''.
Os hinos de louvor tiveram som de atabaque, pandeiro e berimbau; a oferenda veio na forma de frutas tropicais; o altar ganhou mais cores; o padre e a equipe litúrgica trajaram batas típicas da indumentária africana.
Também não faltaram menções à escravidão e à discriminação racial. Combater o preconceito, aliás, foi um dos objetivos da missa. ''Tem muita gente, inclusive negros, que não aceita esse tipo de celebração porque não conhece. Não há conflito nenhum entre a fé católica e os elementos afro-brasileiros'', desmistificou Carlos Henrique Bispo, vice-coordenador da Pastoral Afro-Brasileira de Londrina. Segundo ele, quatro mães de santo acompanharam a missa, sem participar dos ritos. Da mesma forma, explicou, ele pode frequentar um terreiro de candomblé ''somente para assistir''.
Formada este ano, a pastoral já tem 35 membros - cinco deles, brancos - e planos de se expandir para os decanatos de todas as regiões da cidade. Por enquanto, é o núcleo diretamente ligado à Arquidiocese que organiza as missas - a primeira ocorreu em dezembro de 2006, na Zona Sul. Várias outras já estão agendadas. Conforme o vice-coordenador, o próprio arcebispo de Londrina, Dom Orlando Brandes, recomendou que as missas de celebração enculturada sejam realizadas pelo menos uma vez por mês.
De acordo com o padre José de Freitas, que celebrou a missa de ontem, ainda há grande resistência nas paróquias em aceitar esse tipo de missa. ''As pessoas têm medo porque, no passado, já houve mistura de candomblé com macumba (nas missas). Depois que percebem que não é nada disso, elas se abrem'', observou um dos poucos padres negros de Londrina - são ''cinco ou seis no total'', contabiliza.
Para Nereu Teixeira, católico e morador do São Jorge, a missa pode ajudar na inclusão dos negros na sociedade. ''Querendo ou não, nós negros ainda somos rejeitados - nas universidades, por exemplo'', comentou. A dona-de-casa Dejanira Alves, que frequenta a missa na escola municipal todos os domingos, achou a de ontem ''mais animada''. ''(O preconceito) não tem nada a ver. De um jeito ou de outro, é tudo feito buscando Deus'', considerou.
A próxima missa está agendada para o dia 16 de junho, na Paróquia Santa Cruz, Conjunto Luiz de Sá (Zona Norte).


