Miséria atinge 27,26% da população
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quinta-feira, 14 de outubro de 2004
Luciana Nunes Leal<br>Agência Estado 
Rio- Entre 2002 e 2003, o número de brasileiros que vivem na miséria aumentou em 2,4 milhões, passando de 45 milhões para 47,4 milhões. A proporção da população que não tem renda suficiente para suprir as necessidades básicas de alimentação subiu de 26,23% em 2002 para 27,26% em 2003. O crescimento ocorrido no primeiro ano do governo Luiz Inácio Lula da Silva interrompe pela segunda vez a trajetória de queda registrada desde 1993, quando a miséria atingia 36,57% da população.
Os cálculos são do economista Marcelo Néri, do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) 2003 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Néri considera miseráveis os brasileiros que têm renda individual inferior a R$ 108 mensais. Este é o valor apontado pelo economista como o mínimo necessário para o consumo diário de 2.888 calorias. Em 2002, a renda mínima necessária calculada por Néri era de R$ 93 mensais.
O estudo mostra que a miséria cresceu nas regiões metropolitanas e caiu na área rural. No ''Brasil Metropolitano'', a proporção subiu de 16,6% para 19,14%. Na área urbana, que inclui as cidades médias, além das metrópoles, o aumento foi menos intenso, de 24,3% para 24,99%. Na área rural, houve queda, mas a miséria ainda atinge mais de metade a população. A redução foi de 51,4% para 51%.
Desde 1992, quando começa a série de Néri, a miséria rural caiu ano a ano. ''No últimos meses de 2002 e início de 2003 houve inflação alta. Depois, o combate à inflação levou ao desemprego. A PNAD 2003 é o retrato do ajuste, em 2004 vai ser colhido o fruto deste ajuste'', afirma o economista.
O período de queda mais acentuada da miséria ocorreu entre 1993 e 1995 (não houve PNAD em 1994), em consequência do Plano Real. Em 1999, houve aumento de um ponto porcentual. Néri observa que a estabilidade econômica não reduziu a desigualdade, mas permitiu a implementação de políticas sociais eficazes, decisivas para a redução da pobreza, especialmente na zona rural.
A linha de miséria fixada por Néri é maior que a adotada por outros pesquisadores. Em alguns estudos, a pobreza extrema abrange os que têm renda per capita mensal de menos de um quarto do salário mínimo (R$ 65 atualmente). Em outros, o limite é o equivalente a um dólar por dia por pessoa (R$ 90 mensais).


