Miro Teixeira diz que Figueiredo defendia impunidade no caso Riocentro
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segunda-feira, 03 de janeiro de 2000
Por Wilson Tosta e Eliane Azevedo 
Rio, 03 (AE) - O deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ) afirmou hoje que o ex-presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo "deixou claro, na fita, que defendia a impunidade" no caso Riocentro. Miro Teixeira foi uma das vítimas da metralhadora giratória de Figueiredo - na gravação, exibida ontem (02) no programa "Fantástico", da Rede Globo de Televisão, Figueiredo diz que o deputado, candidato a governador do Rio na gestão do ex-presidente, era "uma piada".
"Mirinho eu botava de castigo, de joelho", afirmou Figueiredo. "Não dou importância ao que ele dizia de mim porque estávamos em lados opostos, mas ao que ele disse de si mesmo e que não engrandece sua biografia", afirmou o deputado.
A fita de vídeo, que ficou inédita por quase 13 anos, demonstra que, ao contrário do que dizia, o ex-presidente, que morreu no dia 24, véspera de Natal, não queria ser esquecido.
Durante um churrasco na casa do atual prefeito de Paraíba do Sul (RJ), Rogério Onofre de Oliveira (PSD), em 10 setembro de 1987, Figueiredo concordou em ter gravada uma conversa na qual, além de desancar desafetos como o ex-governador do Rio Leonel Brizola (PDT) e o jornalista Roberto Marinho, dono das Organizações Globo, afirma que não poderia ter feito mais nada para tentar apurar o caso Riocentro.
Em 1981, a explosão de uma bomba no colo do sargento Guilherme do Rosário, no estacionamento do Riocentro, onde se realizava um show promovido por organizações de esquerda em homenagem ao Dia do Trabalho, prejudicou o governo Figueiredo.
Na fita, o ex-presidente revela que, dias depois da explosão, se encontrou com o ex-presidente Ernesto Geisel, na missa de bodas de ouro do ex-presidente Emílio Garrastazu Médici. Geisel, na narrativa de Figueiredo, cobrou dele a apuração do caso. Foi o mote para que Figueiredo tentasse se justificar.
"Não sou Justiça, sou Executivo; (...) eu não tenho nada que fazer a não ser dar força à Justiça para que tenha a liberdade de apurar a verdade e punir quem for responsável", diz o general, na fita, reproduzindo o diálogo com Geisel. Ele continuou: "Eu não vou inventar um responsável como o sr. inventou o general ávila Mello." O general Ednardo Dávila Mello era comandante do então 2.º Exército, quando morreu sob tortura, nas dependências da unidade, o operário Manuel Fiel Filho, em 1976. Geisel exonerou-o.
Para o historiador Celso Castro, estudioso do ciclo militar e um dos autores do livro "Ernesto Geisel" - uma extensa entrevista com o ex-presidente -, a conversa mostra a diferença de conceito de responsabilidade para os dois generais, que se antagonizaram a tal ponto que deixaram de se falar. "Chama a atenção o ex-presidente Figueiredo reproduzir o diálogo como se estivesse contando vantagem", apontou. "Geisel julgou que o comandante era responsável pelo que acontecia na sua unidade e essa não era a visão do Figueiredo."
Apesar de lavar as mãos no episódio, Figueiredo revelou, na gravação, que soube, no dia seguinte, da existência de indícios mostrando a participação de militares - "gente nossa"
como define - no atentado. O inquérito policial-militar (IPM) concluiu que o atentado tinha sido obra de grupos de esquerda e, só em 1999, com a reabertura das investigações, a Procuradoria da Justiça Militar denunciou militares que participaram do crime.
Brizola disse que, pelas circunstâncias do episódio, convenceu-se que Figueiredo, ao gravar a conversa, estava "um tanto ou quanto alcoolizado, com muitos uísques ou muita cerveja". Segundo Brizola - que, segundo Figueiredo, ao visitá-lo, levou-lhe carne e teria sido questionado por ser socialista no Brasil, mas fazendeiro no Uruguai - o presidente disse "muitas verdades, mas muitas coisas desconexas". Ele negou ter presenteado o presidente com carne, "embora tivesse prometido levá-la", e desmentiu o suposto diálogo em que Figueiredo teria posto em xeque as convicções políticas socialistas dele.
"Figueiredo era assim mesmo: meio grosso, fazia questão de mostrar-se rude quando contava seus incidentes com os outros", afirmou Brizola.
"Era carioca, mas, no fundo, cultivava um jeitão gaúcho." O ex-presidente fala também do atual presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), do senador José Sarney (PMDB-AP) e dos ex-presidentes Tancredo Neves e Juscelino Kubistschek, entre outros.
O prefeito de Paraíba do Sul, Rogério Onofre de Oliveira
contou hoje que o churrasco em que Figueiredo deu o depoimento foi organizado a pedido de um amigo comum dos dois, Anívio de Moraes, de Três Rios, município vizinho. Até então, Oliveira, que, na época, não era político, não conhecia o ex-presidente. "Um dia, o Anívio ligou-me, disse que estava levando o Figueiredo a Paraíba do Sul e perguntou se eu não podia fazer um churrasco para ele." O prefeito disse que a conversa durou cerca de três horas, mas a gravação tinha apenas 1h40.
"O presidente estava tranquilo e sóbrio", relatou Oliveira, que disse que Figueiredo deu as opiniões espontaneamente, em resposta a perguntas dos convidados. O que se observa na fita de vídeo, porém, é um pouco diferente. Figueiredo, depois de inicialmente falar sem ser provocado, em tom informal e claro, passou a opinar mais duramente e até com alguma dificuldade para articular palavras, com cerca de uma hora de conversa, quando os convidados passaram a sabatiná-lo. Ao longo do vídeo, enquanto fala, o ex-presidente aparece bebendo cerveja quase sem parar, e chega a fazer comentários depreciativos sobre as vidas privadas de alguns políticos.
Oliveira disse que pretende doar o material para uma instituição de preservação da memória nacional para que se faça justiça histórica ao general. "Se Figueiredo não tivesse sido um caboclo firme, não teria havido transição democrática", disse. "Ele foi pressionado por militares a não fazer a abertura."


