Miranda pede afastamento imediato de Campelo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 15 de junho de 1999
Por Hugo Marques, especial para a AE 
Brasília, 16 (AE) - O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, deputado Nilmário Miranda (PT-MG), pediu hoje (16) à Presidência da República o imediato afastamento do delegado João Batista Campelo do cargo de diretor-geral da Polícia Federal.
Em um relatório de seis páginas, Nilmário Miranda enumerou todos os indícios e provas de que Campelo realmente teria torturado o professor de Filosofia e ex-padre José Antônio de Magalhães Monteiro, em 1970, no Maranhão. Em seu depoimento na Comissão, Monteiro disse que Campelo o teria colocado no pau-de-arara e acompanhado as torturas a que foi submetido.
Campelo prometeu depor amanhã pela manhã na Comissão. Três agentes federais que trabalhavam com Campelo em São Luis e outras duas três pessoas que teriam sido torturadas foram convidadas a depor.
Nilmário Miranda admitiu hoje à noite que escreveu seu relatório antes do depoimento de Monteiro. "Eu já tinha a convicção que ele foi torturado e o depoimento foi bom para firmar ainda mais a minha convicção", disse. Nilmário chegou à conclusão sobre a tortura ao analisar sentença da Justiça Militar em que Monteiro é absolvido das acusações porque testemunhas de acusação contestaram em juízo as declarações prestadas em inquérito policial da PF, dando como motivo desta contestação "a coação física e moral da parte de policiais". O deputado também juntou ao documento os laudos que falam sobre a tortura.
Mais de 80 parlamentares se espremeram hoje no plenário da Comissão de Direitos Humanos para ouvir Monteiro. "Passei uma noite de horror, uma noite inacabada" , disse Monteiro ao descrever uma das noites de tortura. Segundo ele, Campelo o colocou no pau-de-arara algumas vezes, ajudando a amarrá-lo. "Quase sempre que eu me recusava a responder às perguntas eu apanhava", disse.
A ida de Monteiro a Brasília foi cercada de complicações. As únicas duas malas extraviadas no avião foram as dele e do vereador de São Luis que o acompanhava, Eduardo Bonfim (PC do B). Monteiro já estava irritado com denúncias de morte que vem recebendo desde a semana passada e se mostrou indignado ao saber que os documentos que dariam base a seu depoimento estavam dentro da mala. "Estranho muitíssimo a retenção desta bagagem"
disse. Somente às 21 horas é que Monteiro recebeu a mala com a documentação. Ele teve problemas de hipertensão antes do depoimento e foi internado no Departamento Médico da Câmara. Após o depoimento, voltou a apresentar hipertensão.
O silêncio no auditório da Comissão dos Direitos Humanos, que não coube às mais de 300 pessoas que queriam acompanhar o depoimento, foi absoluto quando Monteiro começou a descrever o pau-de-arara onde foi amarrado e o sentimento de um torturado. "O sofrimento no pau-de-arara é doloroso, de estar sem onde colocar o pescoço e querendo partir a coluna."
Monteiro disse aos parlamentares que o trabalho que desenvolvia junto às comunidades e aos camponeses sem-terra, no município de Urbano Santos (MA), teria causado a fúria dos donos de terras, políticos e militares. Ele afirmou que Campelo cometeu várias irregularidades para prendê-lo. "O Campelo invadiu a minha casa, arrombou o meu arquivo de aço e destroçou a minha biblioteca", disse.
Monteiro disse que Campelo, de revólver em punho, anunciou a prisão. "Perguntei ao Campelo porque eu estava sendo preso e ele disse que isto não interessava", afirmou. Segundo Monteiro, o jipe gastou cerca de 10 horas para chegar à capital, mas que em nenhum momento foi algemado. Campelo afirmou que os ferimentos no corpo de Monteiro teriam sido causados por algemas.
O professor negou que tivesse algum dia aplicado "castigos" a Campelo. O novo diretor da PF sugeriu em uma nota divulgada ontem que teria sido castigado por Monteiro. "Nós estudávamos em pavilhões diferentes, separados", disse.
O depoimento de Monteiro na Câmara foi acompanhado por alguns padres e freiras, Anistia Internacional, representantes de agências internacionais de notícias até amigos do diretor da PF, exemplo do agente Arthur Carbone.
Segundo a Comissão de Direitos Humanos, Carbone é apontado como um dos agentes que ajudaram Campelo. Carbone foi convidado a depor nos próximos dias, juntamente com os agentes Adalberto Medanha e José Antônio Nery.
A Comissão vai ouvir ainda Rosalina Costa Araújo e Paulo Moraes Rego, que teriam sido também torturados por Campelo, o juiz ¶ngelo Ratacazzo, que prendeu e absolveu Monteiro, e o advogado Antônio de Pádua Barroso, advogado de defesa.
Monteiro afirmou que foi eleitor do atual ministro da Justiça, Renan Calheiros, quando este se candidatou a deputado por Alagoas. Foi Renan quem deu posse a Campelo. O professor disse que já tinha prestado este mesmo depoimento em 1993, quando Campelo era secretário da Polícia Federal, em 1993, ocasião em que o ex-presidente Itamar Franco o afastou do cargo.
O depoimento do ex-padre comoveu dezenas de parlamentares, inclusive alguns da base parlamentar do governo. A deputada Rita Camata (PMDB-SC) disse que Campelo deveria pedir demissão da PF, após o depoimento de ontem na Câmara.
Alguns parlamentares, no entanto, saíram em defesa de Campelo. O senador Eduardo Suplicy tentou convocar Campelo a depor na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, mas foi derrotado na votação.


