Rio, 04 (AE) - Depoimentos emocionados e pedidos de justiça deram o tom do encontro de hoje à tarde, no Rio, do ministro da Justiça, Renan Calheiros, com ex-moradores do Palace 2 - na Barra da Tijuca, zona oeste, que desabou parcialmente no dia 22 de fevereiro do ano passado e foi posteriormente demolido. O ministro prometeu marcar, para a próxima terça-feira, um encontro com o procurador-geral da Justiça, Geraldo Brindeiro. Calheiros disse que vai se empenhar para que seja oferecida denúncia contra o dono da construtura Sersan, o ex-deputado Sergio Naya. "Os escombros do Palace 2 não podem cobrir a impunidade", declarou.
O encontro, proposto pelo ministro, aconteceu no auditório do Arquivo Nacional, no centro da cidade, e durou cerca de uma hora. O advogado criminalista Nélio Andrade e o deputado federal Márcio Fortes também estiveram presentes. Calheiros ressaltou que o oferecimento da denúncia é fundamental para que haja a punição, inclusive a decretação de prisão preventiva do ex-deputado, proposta que foi sugerida pelos moradores e pelo advogado Andrade. "Antes de tudo, é preciso oferecer denúncia para que haja responsabilização criminal; e o meu empenho é colaborar com este propósito", frisou.
O ministro garantiu que vai agir junto ao Congresso Nacional e ao Senado para que se possa agilizar a tramitação, a apreciação e aprovação do acordo de cooperação judiciária, na área criminal, assinado com o governo dos Estados Unidos. Segundo Calheiros, com a aprovação do acordo, que está tramitando no Congreso, será possível utilizar os bens de Naya naquele país para reparar os danos causados pelo desabamento do Palace. "Espero que isso se faça rapidamente, em 30 ou 40 dias", comentou.
Ele disse, ainda, que vai propor à comissão que estuda a reforma do Código Penal que tragédias como a do Palace 2 sejam tipificadas como fraude imobiliária. "Sem esta, não vamos, de forma nenhuma, punir exemplarmente como queremos" , obsevou. O ministro fez questão de deixar claro, porém, que o Ministério da Justiça integra o Poder Executivo, enquanto o Poder Judiciário é autônomo. "São poderes diferentes", comentou. "Mas prometo agregar esforços", acrescentou, dizendo que o importante é acabar com a impunidade. "Além de função punitiva, a pena tem também uma função preventiva". Moradores - Demonstrando indignação, os moradores do Palace 2 deram depoimentos emocionados. Ao lembrar do dia da tragédia, o coronel Marco Aurélio Silva, que ajudou na retirada de moradores do prédio antes do desabamento, chorou. A emoção de Silva contagiou outros moradores, que também choraram e o aplaudiram ao final de seu desabafo.
"Levei 25 anos salvando vidas, o País me deve muito", disse. "E é isto que recebo?", questionou. Silva lembrou que, por causa do acidente, foi obrigado a aceitar doação de roupas. "Por causa deste cidadão, comemos na rua", acusou.
Também muito nervosa, a psicóloga Eny Peniche relatou o seu sofrimento. "Perdi tudo, a minha capacidade de trabalho, a minha vida", lamentou chorando. Eny contou que recebeu dos advogados de Naya, no dia 1º de fevereiro, um comunicado de que deve sair do hotel onde está hospedada, porque o ex-deputado já pagou indenização ao proprietário do apartamento do Palace, onde Eny morava. "Me senti como no dia do desabamento do prédio", comentou. "Precisamos ser tratados com dignidade, isto tudo foi uma perda moral muito forte", frisou.
Os moradores estão se organizando para embarcar, no dia 21 de fevereiro, para Orlando, nos Estados Unidos. Lá, onde Naya tem um hotel, pretendem distribuir encartes, em inglês, contando, além da tragédia ocorrida em fevereiro, a situação de outros prédios construídos por Naya, e sobre a vida do ex-deputado.
idéia, segundo a presidente da Associação dos ex- moradores do Palace 2, Rauliete Barbosa Guedes, é ir a todos os cantos. "Vamos na porta do prédio dele em Orlando, na Disney, onde tiver gente que possa ler essas histórias". Rauliete se dizia feliz com o resultado do encontro. "Estou muito feliz, afinal, por iniciativa própria, um ministro de Estado saiu do protocolo para vir conversar conosco", ressaltou. "Estou otimista, aliás, não posso perder essa confiança", resumiu.

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