Ministro militar reage às suspeitas de que Abin grampeou BNDES
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terça-feira, 25 de maio de 1999
Por Tânia Monteiro 
Brasília, 26 (AE) - O ministro-chefe da Casa Militar, general Alberto Cardoso, reagiu hoje às suspeitas levantadas pela Polícia (PF) e pelo Ministério Público Federal (MPF) de que a autoria da escuta clandestina feita nos telefones do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), em meados de 1998, durante o processo de privatização do Sistema Telecomunicações Brasileiras (Telebrás), apontavam para a Agência Brasileira de Inteligência (Abin). O general negou que Abin tenha feito qualquer tipo de escuta, garantiu que a área de inteligência do governo saiu do caso em novembro, quando repassou as duas fitas que obteve para a PF, disse que não tinha conhecimento das 46 gravações agora divulgadas e negou haver contradição entre o depoimento dele e o do chefe do escritório da Abin no Rio.
Para o ministro, não há dúvidas de que o objetivo da divulgação de novas fitas é "enfraquecer o presidente da República", uma vez que chegam em momento no qual o governo atravessa turbulências e a popularidade do presidente Fernando Henrique Cardoso está em baixa. Preocupado com a repercussão das últimas notícias envolvendo o nome da Abin, hoje pela manhã, Alberto Cardoso procurou Fernando Henrique, no Palácio da Alvorada, para lhe "prestar contas do que foi publicado".
Segundo versão do Ministério Público do Rio, a Abin fez o grampo institucionalmente - com conhecimento e conivência da chefia. "Absolutamente inverídico ser institucional, além de absolutamente impossível, porque a ordem teria de ter sido dada por mim ou pelo subsecretário de Inteligência, coronel Ariel De Cunto", afirma o general.
Para a PF, o servidor do antigo Serviço Nacional de Informações (SNI) e que permaneceu na Abin,Temilson Antônio Barreto de Resende, o "Telmo", especialista em análise de informações, teria montado a operação de escuta telefônica.
"Ninguém está livre de um maluco ou um desonesto resolver, por iniciativa própria, fazer um comércio desses; nenhum órgão está livre disso", observou o general, depois de lembrar que o funcionário está afastado das atividades de inteligência desde as denúncias do grampo, por estar respondendo a um inquérito por envolvimento com bicheiros.
Informou ainda que, na sindicância aberta para se tentar apurar se "Telmo" havia feito o grampo, nada foi encontrado, o que não era de se estranhar porque "essa turma não deixa rastro e seria difícil, senão impossível de descobrir". "Não posso afirmar que ele não fez por meio próprio, mas, lá no Rio, ele é tão suspeito quanto outros dez, pelo menos", acrescentou.
A contradição levantada pelo Ministério Público e pela PF para considerar a Abin suspeita, de acordo com o general, está num pequeno detalhe. O chefe do escritório no Rio declarou ter informado ao general, em agosto, que "corriam por aí" boatos da existência de alguma coisa envolvendo o presidente. O general, no depoimento em abril, disse que o chefe do escritório lhe avisou existirem gravações envolvendo o presidente.
"Portanto, a contradição seria que o chefe da agência no Rio não teria sido específico em declarar que eram fitas gravadas e eu teria declarado que eram fitas gravadas; pelo amor de Deus...essa declaração foi dada oito meses depois, quando as fitas já haviam aparecido e absolutamente sem ter certeza se ele falou que tinha fita ou que não tinha fita, se era material ou o que era; não há nenhuma contradição", queixou-se ele. Alberto Cardoso não acredita que existam segundas intenções na divulgação dos fatos nem pela PF nem pelo Ministério Público. "Tenho, por princípio, não acusar ninguém sem provas", argumentou, lamentando o mal-entendido. "Agora, é aguardar as conclusões do inquérito porque, por enquanto, só existem hipóteses de um inquérito em andamento", disse, lembrando que estava dando declarações sobre o fato porque sigilo do inquérito havia sido quebrado.
"Este é um contra-ataque porque acho que o que vem por aí agora é a exploração do suposto contraditório", comentou o general, ao justificar por que procurou o presidente hoje para prestar os esclarecimentos. Alberto Cardoso informou ainda que não saiu a procura de novas fitas, não vai sair e nem tem ninguém da área de inteligência do governo investigando nada porque "há um órgão policial fazendo isso (PF), que tem meios e mandatos", que a Abin não tem. Ele assegurou ainda que as duas primeiras fitas que chegaram a Abin em agosto pareciam ter sido editadas, mas, se alguém fez isso, não foi o pessoal dele, uma vez que apenas três pessoas manipularam as fitas na Abin. "Não fizemos nenhum retoque nas fitas", garantiu. O ministro-chefe da Casa Militar saiu ainda em outra frente, na própria defesa. Preocupado com a repercussão dos fatos, hoje mesmo, procurou dez senadores, entre eles o relator do projeto que cria a Abin, Romeu Tuma (PFL-SP). "Institucionalmente, não houve escuta; e pedi a eles que isso não interferisse no andamento do projeto de lei." Ele acrescentou: "Pelo contrário, acho que este é mais um motivo para acelerar o projeto de lei, que prevê o controle externo (da Abin) por parte do Legislativo."


