Ministro e sem-terra disputam a mídia
PUBLICAÇÃO
sábado, 15 de fevereiro de 1997
Agência Folha 
SÃO PAULO - Uma das frentes de combate entre Raul Jungmann e o MST é a disputa por espaço na imprensa. O ministro se esforça por preencher sua agenda com o maior número possível de entrevistas.
Na sexta-feira da semana anterior ao Carnaval, por exemplo, o ministro tinha cinco dos seus seis compromissos agendados com jornais, rádios ou televisões, para tratar de temas diversos.
O objetivo de Jungmann é neutralizar o destaque dado pelos veículos de comunicação ao MST. Para isso, não economizou críticas ao movimento ou frases de efeito.
Nos últimos dias, disse que a estratégia do MST - invasão de repartições públicas e fazendas - faz apologia da morte e que o movimento transforma funcionários públicos em reféns.
Jungmann acredita que o espaço conseguido pelo MST na mídia fortalece o movimento. No momento em que o MST sentar para negociar com o governo ele vai sumir das manchetes, avalia.
Na avaliação do MST, Jungmann está tendo uma superexposição, como diz o coordenador do movimento João Pedro Stédile. Ele aparece mais que o Pedro Malan (ministro da Fazenda), que é muito mais importante, diz. Para ele, Jungmann está fazendo propaganda enganosa, já que o movimento discorda dos dados apresentados por Jungmann como resultados da atuação do governo na reforma agrária: Ele deveria fazer curso para ator da Globo, porque não está passando credibilidade, ironiza Stédile. Para o estudioso da questão agrária e professor da Universidade Estadual Paulista Bernardo Mançano Fernandes, o diálogo entre o ministro e o MST se tornou um jogo de faz-de-conta.
Segundo Mançano, há um impedimento claro para o diálogo entre as partes: o governo não teria condições de atender as reivindicações do MST, caso aceitasse negociar.
Embora a reforma agrária de Fernando Henrique seja muito mais do que já foi feito pelos outros presidentes, é muito modesta em relação à demanda de famílias sem-terra, avalia Mançano. O governo pretende assentar 280 mil famílias, mas há quatro milhões acampadas pelo País.


