Cidade do México, 30 (AE) - O ministro-chefe da Casa Militar, general Alberto Cardoso, responsável pela área de inteligência do governo, avisou hoje que, caso seja convocado para uma acareação com um subordinado - o chefe do escritório do Rio, João Guilherme de Almeida - na Polícia Federal (PF), irá, sem problemas. "Claro que eu vou", disse Cardoso, por intermédio do filho, Flávio Cardoso. A possibilidade de submeter-se a uma acareação, no entanto, é considerada absolutamente "constrangedora" por ele e pelo subsecretário de Inteligência do governo, coronel Ariel de Cunto.
O coronel, que falou hoje com a reportagem por telefone, disse estar "revoltado" com as notícias que estão sendo publicadas sobre o suposto envolvimento do órgão que dirige com a instalação de escutas telefônicas clandestinas no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) durante o processo de privatização do Sistema Telebrás. Avisou, no entanto
que tanto ele como o general Cardoso "vão até o fim, até as últimas consequências nessa apuração, porque não têm nada a esconder".
"Não sei se esse é um ato em proveito da Justiça, ou se
por trás disso, tem alguma jogada decorrente de coisas menores e de posições que nada têm a ver com a busca da verdade, ou seja
da busca de quem grampeou os telefones e gravou conversas", disse Cunto. Ele referia-se, na verdade, à disputa que passou a existir entre a PF e a Casa Militar depois que o presidente Fernando Henrique Cardoso delegou ao general Cardoso funções que antes eram atribuições da PF.
O coronel afirmou "estar convencido" de que por trás dessa tentativa de fazer acareações e da publicação de acusações sobre o caso "tem uma armação para derrubar o general Cardoso e prejudicá-lo". Para ele, a suposta contradição entre o que disse o chefe do escritório no Rio e o general, no depoimento, é "absurda".
A contradição levantada pelo Ministério Público (MP) e pela PF para considerar a futura Agência Brasileira de Inteligência (Abin) suspeita, de acordo com o general Cardoso, está num pequeno detalhe. O chefe da agência no Rio declarou que informou ao general, em agosto, que "corriam por aí" boatos da existência de "alguma coisa" envolvendo o presidente. O general, no depoimento à PF em abril, disse que o chefe do escritório da Abin o avisou de que existiam gravações envolvendo o nome de Fernando Henrique.
O general ressaltou que essa declaração foi dada oito meses depois, quando as fitas haviam aparecido e ele não tem certeza se falou que existiam ou não fitas, se era material ou não.
Responsável direto pelo Setor de Informações da Abin, Cunto classificou como "absurda" a idéia de uma acareação. "Recuso-me a imaginar que se queira chamar de contradição as duas declarações", queixou-se o coronel, lembrando que o objetivo da ação que existe na Justiça é saber quem pôs o grampo no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). "O que está sendo feito e a forma como isso está sendo feito não vão elucidar coisa nenhuma", insistiu ele.
Cunto reiterou que a Abin não promoveu nenhuma escuta telefônica e reagiu às afirmações de que foi usado equipamento do governo para fazer o grampo. "Para isso, basta um gravador, que pode ser comprado em qualquer lugar por quaisquer 10 reais"
prosseguiu, classificando como "irresponsabilidade" fazer tais acusações.

mockup