Lisboa, 11 (AE-AP) - Em seu primeiro gesto concreto contra o governo de extrema direita da áustria, a União Européia (UE) ignorou completamente a presença da representante austríaca na reunião de cúpula informal de ministros da área social da comunidade, aberta hoje (11) na capital portuguesa. A austríaca Elisabeth Sickl não recebeu nenhum cumprimento dos demais colegas europeus. Eles permaneceram à distância, evitando ser fotografados ou filmados ao lado dela. E quando ela subiu à tribuna para um pronunciamento, as ministras do Trabalho da França, Martine Aubry, e da Bélgica, Laurette Onkelinx, retiraram-se do plenário.
Em seu discurso, Onkelink havia proposto emenda à Carta da UE para excluir das reuniões técnicas os governos com participação da "ultradireita xenófoba". O ministro do Trabalho alemão, Walter Riester, manteve-se afastado da polêmica. "Esta é uma reunião de trabalho normal", argumentou.
Por sua vez, um assessor da ministra francesa adiantou que o ministro das Relações Exteriores francês, Hubert Védrine, não vai manter contatos formais com a colega austríaca, Benita Ferrero-Waldner, durante a reunião ministerial da UE, marcada para segunda-feira em Bruxelas. A França, ressaltou ele, continuará atenta aos acontecimentos políticos na áustria.
Os governos francês e belga estão entre os mais ferrenos opositores ao novo gabinete austríaco, integrado por representantes do Partido da Liberdade (FPO), chefiado pelo líder racista Joerg Haider. O governo austríaco é presidido pelo dirigente conservador Wolfang Schuessel, do Partido Popular Austríaco (VPO), que se aliou a Haider para ter suporte parlamentar.
Quando esse governo tomou posse na semana passada, a UE, com apoio dos Estados Unidos e de Israel, impôs um isolamento político à áustria.
O embaixador austríaco nos EUA, Peter Moss, disse em Washington que a UE abriu, com sua atitude, um perigoso precedente. "Interferir na política interna dos sócios é agora a nova norma da UE", ressaltou, para indagar: "Quem será o próximo?"
Aparentando indiferença aos protestos, Schuessel, o novo chanceler austríaco, anunciou hoje a aplicação de um "severo plano de ajuste econômico" no país. "A situação financeira é desastrosa", justificou, acrescentando que vai cortar gastos para frear o déficit público. "O problema é muito mais grave do que estimávamos", insistiu, referindo-se aos "desacertos" do governo anterior, presidido pelo social-democrata Viktor Klima. Schuessel participava do gabinete anterior, como vice-chanceler e ministro das Relações Exteriores.
A nova coalizão, liderada pelo partido ultranacionalista de Haider, elegeu como prioridade no campo econômico sanear o orçamento, principalmente com a eliminação de gastos. Mas hoje anunciou aumento de impostos que incidem sobre as vendas de automóveis e cigarros e também de algumas tarifas, como as de energia elétrica, e dos pedágios em todas as rodovias do país.
O ministro das Finanças, Ernst Strasser, confirmou planos para reformar o sistema de seguro social, porém sem dar detalhes. Tem-se como certo, no entanto, aumento da idade para aposentadoria, que hoje é de 60 anos para os homens e de 55, para as mulheres. Quanto ao sistema de saúde, cada usuário terá de arcar com 20% de suas despesas de atendimento médico hospitalar. As centrais sindicais já manifestaram sua oposição às mudanças e ameaçam desencadear uma campanha de greves.
Em meio a esse quadro, uma cidadã israelense, Noemi Mherhav, de 73 anos, decidiu recorrer à Justiça austríaca para reaver uma fazenda da família em Caríntia, herdada por Haider. A mãe dela teria sido forçada a entregar as terras em 1939 a um tio avô de Haider por um preço irrisório.

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