Ministério da Saúde e da Justiça querem alterar composição da cola de sapateiro
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quinta-feira, 29 de julho de 1999
Por Gabriela Athias 
São Paulo, 30 (AE) - Os Departamentos da Criança e do Adolescente dos Ministérios da Saúde e da Justiça vão solicitar à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVS) a substituição da principal substância que compõe a cola de sapateiro, o tolueno de benzeno. O produto, com propriedades alucinógenas, é aspirado diariamente por milhares de crianças e adolescentes no País. Se a Vigilância acatar o pedido, o benzeno passará a fazer parte de uma lista de produtos considerados tóxicos e entorpecentes, sob uma rubrica que tem a utilização controlada pela Polícia Federal.
"Esse vício já atingiu o nível das epidemias: os cheira-cola já são um problema de saúde pública", considera Olga Câmara, diretora do Departamento da Criança e do Adolescente do Ministério da Justiça. A substituição do benzeno, que vinha sendo estudada pelo Conselho Nacional da Criança e do Adolescente (Conanda) desde maio, deverá ser formalizada no dia 4, em Brasília. Olga explica que o objetivo é tornar a cola uma substância menos atrativa para o olfato. Uma das possibilidades que vêm sendo estudadas é a substituição do benzeno por parafenol, substância cujo cheiro provoca náusea na maioria das pessoas.
Lauro Monteiro, presidente da Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (Abrapia), diz que praticamente toda a população infanto-juvenil que vive nas ruas cheira cola. "Nos habituamos a ver meninos cheirando cola; transformamos isso em uma coisa trivial", afirma. Monteiro lembra que, em 1982, quando era chefe da pediatria do Hospital Souza Aguiar, no Rio, os policiais levavam os "cheira-cola" para serem atendidos no ambulatório, quando estavam no estágio de sonolência. "Hoje eles ficam pela rua e quase ninguém nota."
Efeitos - A cola, além de causar excitação, letargia e vômito (nessa ordem), compromete a produção das células sanguíneas e reduz a imunidade. Consequência: anemia e propensão a infecções oportunistas.
Há ainda as consequências sociais do uso da cola. Levantamento do Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua de São Paulo, feito com a população carcerária da Fundação do Bem-Estar do Menor (Febem), mostra que 40% dos meninos, quando cometeram o crime pelo qual cumprem pena, estavam sob efeito da cola ou do crack. A secretária-executiva do movimento, Laura Valero de Barbosa, lembra que a simples eliminação do benzeno da cola não será suficiente para resolver o problema das crianças drogadas. "Esse público precisa de uma política específica."
Os especialistas concordam que a substituição do benzeno por si só é insuficiente, mas, como resalta Olga, do Ministério da Justiça, o uso dessa substância já foi proibido em vários países, como França e Estados Unidos. No Brasil, desde a década de 40, a legislação trabalhista proíbe mulheres e crianças de trabalhar com benzeno. Em alguns Estados a venda de cola é proibida a menores de 18 anos, mas as crianças costumam obter a cola por intermédio de adultos.


