Mais uma vez, o Ministério do Desenvolvimento Agrário deixou para gastar a maior parte do orçamento previsto para a reforma agrária nos últimos dois meses do ano. A constatação foi feita pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc), e está em relatório mostrando que o ministério só havia aplicado, até o início de novembro, R$ 372,5 milhões dos R$ 1,5 bilhão do orçamento 2001. O ministério teria disponível ainda R$ 1,127 bilhão.

''É péssimo para os movimentos sociais ter de esperar até o final do ano pelo dinheiro da reforma agrária'', afirmou o assessor sênior do instituto e autor do estudo, Edélcio Vigna. Pelos cálculos do assessor, o governo teria que investir, até 31 de dezembro, quase R$ 18,7 milhões por dia para zerar o orçamento. Edélcio acredita que isso seja possível, mas reclama da demora na aplicação dos recursos. ''Não existe um planejamento estratégico, o que faz com que a maior parte dos recursos fique reservada para ser gasta nos últimos 60 dias do ano'', disse.

Um dos coordenadores nacionais do Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Paulo Rodrigues, destaca que os mecanismos da reforma agrária são diferentes de outras reivindicações sociais. Para ele, a agricultura tem um ciclo que precisa ser respeitado. ''Não adianta liberar os recursos após o período das chuvas, pois o agricultor vai perder a safra.''

Outra crítica de Edélcio é de que o Ministério, ao discutir o orçamento anual para investimento na reforma agrária, não convida para o debate os movimentos sociais como MST, Contag e Comissão Pastoral da Terra (CPT), ligada à igreja católica. ''Eles jamais nos convidaram para discutir nada'', endossou Antônio Canuto, um dos coordenadores da CPT. ''O governo não tem a reforma agrária como prioridade, é puro marketing.''

A secretária de política agrária e meio ambiente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), Maria das Graças Amorim, considera muito difícil o ministério gastar o R$ 1,5 bilhão disponível em caixa até o final do ano. ''Só se for um milagre, pois o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) está com carência de técnicos especializados.'' Graça afirma que todo ano é a mesma história. ''O governo diz que vai gastar tudo, mas só deverá conseguir aplicar 60%, 70% no máximo.''

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