Salvador, 24 (AE) - O Ministério da Cultura formaliza amanhã o tombamento do terreiro de Candomblé Ilê Opô Afonjá, situado no bairro de São Gonçalo do Retiro, periferia de Salvador, como Patrimônio Cultural da Nação. Na oportunidade, o ministro da Cultura, Francisco Weffort, vai agraciar a sacerdotisa da casa, mãe Stella de Oxóssi, de 74 anos, com a Medalha da Ordem do Mérito Cultural. As homenagens coincidem com a festa do 60º aniversário de iniciação de mãe Stella no candomblé. Ela é uma das mães-de-santo mais respeitadas da Bahia.
De posições firmes, mãe Stella sempre se destacou na defesa da pureza da religão africana, sendo contra o sincretismo religioso, largamente praticado na Bahia. "Não precisamos mais do sincretismo", costuma dizer, achando que a prática enfraquece a religião. Ela lembra que quando a polícia reprimia o culto a deuses africanos no Estado, na maioria dos terreiros de Salvador tinha missa de São Jorge. Era a forma que os negros encontraram para conciliar as duas religiões e escapar da repressão. "Hoje esse sincretismo, usado para legitimar o Candomblé, não tem mais sentido", argumenta. Nesse aspecto, sua posição é exatamente igual à dos setores mais conservadores da Igreja Católica que pregam a separação no culto das duas religiões. Mas o sincretismo já está enraizado na vida da população baiana. O exemplo mais significativo é a adoração dos baianos ao Senhor do Bonfim, santo que é identificado como Oxalá.
O tombamento do Ilê Axé Opô Afonjá reforça a luta de mãe Stella pelo respeito mútuo entre as religiões, pois preservará, do ponto de vista legal, todo o acervo do terreiro. Qualquer intervenção física que venha a ser feita no local só poderá ocorrer com a aprovação da União, através do Instituto do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional. O Afonjá é o segundo terreiro tombado pelo Ipahn. O primeiro foi o Casa Branca, também de Salvador.

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