Battambang (AE-AP) - O líder guerrilheiro Pol Pot morreu em abril do ano passado, mas ainda segue semeando a morte e a destruição entre seus compatriotas. O mortífero legado do homem a quem se atribui um banho que sangue que acabou com a vida de cerca de 2 milhões de cambojanos continua através das numerosas minas terrestres que matam e mutilam diariamente nos campos do noroeste do país.
As vítimas são míseros refugiados e ex-soldados que se apressaram em se estabelecer no que poderia ser o primeiro terreno que jamais possuíram. "É uma das áreas mais densamente minadas do mundo", disse Archie Law, diretor do Grupo de Assessoria sobre Minas no Camboja. Durante 30 anos de guerra civil, as forças do governo militar de Lon Nol e logo depois as forças de ocupação vietnamitas semearam esta região com minas para combater os guerrilheiros ultramaoístas do Khmer Vermelho. O grupo, no entanto, minou de propósito os terrenos e estradas agrícolas para matar e mutilar os civis alheios ao seu movimento.
No noroeste é normal se deparar com muletas ou membros artificiais pelos caminhos. Também são muito comuns os letreiros em vermelho com o emblema da caveira e dos ossos cruzados com a legenda "Perigo - Minas". O relato da jovem Korn Poy, de 18 anos, e de seu marido se assemelha aos de tantos outros cambojanos que conheceram pouco mais que morte e selvageria nas últimas décadas. Korn Poy contempla inexpressiva as macas ensanguentadas na sala de admissões do centro de emergências traumáticas de Battambang. Estendido em uma cama, seu marido Nil Sakar, de 20 anos, com quem está casada há menos de um ano, dá gritos de dor. Os restos de seu pé direito estão fortemente atados; sua perna direita está queimada e repleta de feridas. Ele foi vítima de uma mina antipessoal de três dólares deixada pelo Khmer Vermelho. O casal, que regressou da Tailândia há pouco tempo, quando o marido perdeu seu emprego em uma obra em Bancoc, apostou tudo na oportunidade de ter uma propriedade em Bavil. Enquanto retirava o mato de suas terras, Nil Sakar pisou na mina oculta, como fez seu pai em 1994 ao morrer combatendo no Khmer Vermelho. Sua mãe, Heng Sath, gastou as economias restantes da família - sete dólares - para alugar um caminhão e levar seu filho ao centro de traumas em Battambang, a cerca de 100 quilômetros de distância. A viagem levou seis horas. "Achava que ele ia morrer", disse "Não sabia o que fazer".
Cerca de 300 cambojanos morrem ou são mutilados por minas terrestres todo mês, segundo especialistas. Law calcula que, com entre 4 e 6 milhões de minas ainda enterradas, os cambojanos deverão continuar pisando nelas e morrendo durante os próximos 30 anos. "A guerra terminou, mas as minas continuam presentes e não sabem que acabou o conflito", disse o cirurgião que irá operar Nil Sakar. Duas enfermeiras colocaram o paciente na cama. O cirurgião indicou o meio da canela da vítima e disse: "Digam-lhe que a amputação será aqui". Não aguentando de dor, Nil Sakar não pôde fazer nada além de assentir. A operação demorou várias horas e serão entre três e quatro meses de uma penosa convalescença antes que Nil Sakar possa caminhar com a ajuda de uma perna artificial.
De certo modo ele teve sorte. O cuidado e os remédios que ele receberá no hospital são os melhores do Camboja, onde normalmente praticam-se as operações em hospitais sujos e mal-equipados. O centro de emergências é dirigido por um organismo privado italiano dedicado a socorrer as vítimas da guerra. Seus quatro cirurgiões, mais dois médicos cambojanos e 140 enfermeiras, técnicos de laboratório e pessoal de apoio estão bem preparados e motivados. No entanto, como milhares de outros cambojanos que foram vítimas de campos minados, Nil Sakar tem um futuro ruim. Os inválidos não são os melhores agricultores de arroz. "Não quero regressar à minha aldeia", disse o paciente, estendido na cama depois da amputação e olhando fixamente para o teto. "Mas não tenho alternativa".

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