Milosevic manobra para conquistar apoio de grupo oposicionista
Belgrado, 01 (AE-AP) - Enquanto novas evidências de massacres emergiam em Kosovo, o presidente iugoslavo Slobodan Milosevic conquistava nesta quinta-feira (01) o apoio condicional de um grupo oposicionista chave numa campanha para abafar seus críticos, manter o poder e evitar um processo por crimes de guerra.
O comandante das forças de paz dos Estados Unidos em Kosovo, enquanto isto, advertiu que seus soldados enfrentam contínuas ameaças de paramilitares sérvios que permanecem na província violando um acordo de paz que exige que todas as forças iugoslavas saiam da região.
No sudoeste de Kosovo, tropas alemãs encontraram as covas de 119 pessoas que moradores disseram foram mortos pelos sérvios em 25 de março - um dia depois que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) começou a bombardear a Iugoslávia. Os moradores acreditam que mais corpos ainda serão descobertos em Celine e Nagafc.
Milosevic e quatro assessores foram indiciados pelo tribunal de crimes de guerra da Organização das Nações Unidas (ONU) por atrocidades cometidas contra a maioria albanesa étnica de Kosovo desde fevereiro de 1998. Líderes ocidentais têm se recusado a ajudar na reconstrução da Iugoslávia enquanto Milosevic continuar no poder.
Cerca de 10.000 pessoas compareceram ontem a uma manifestação numa cidade do centro da Sérvia para exigir a renúncia de Milosevic. A Aliança pela Mudança marcou para amanhã um segundo protesto contra o governo em Novi Sad, segunda maior cidade sérvia e que foi duramente bombardeada pela Otan.
Enfrentando pedidos por sua renúncia e uma crise econômica e social cada vez maior, o presidente linha dura iugoslavo tem feito acenos a vários grupos políticos.
Ivica Dacic, porta-voz do Partido Socialista, de Milosevic, fez um apelo hoje pela reorganização do governo a fim de incluir todos os partidos representados no parlamento - exceto a Aliança pela Mudança.
Nesta quinta-feira, um grande partido pró-democrático, o Movimento pela Renovação Sérvia, indicou o interesse de participar do governo caso ele seja ampliado para incluir opositores de Milosevic em Montenegro, a menor das duas repúblicas iugoslavas.
O líder do extremista Partido Radical Sérvio, Vojislav Seselj, disse que uma coalizão de governo "é necessária para evitar as intenções dos Estados Unidos de dividir ainda mais a Iugoslávia".
Ao mesmo tempo, um tribunal militar de Belgrado lançou uma investigação criminal contra um dos líderes da Aliança, Zoran Djindjic, por não ter atendido a uma convocação do exército, disse seu advogado. Tais investigações muitas vezes levam a um indiciamento formal.
Em Kosovo, oficiais alemães afirmaram que, aparentemente, paramilitares sérvios mataram pelo menos 119 pessoas durante uma repressão em Celine e Nagafc. Um contagem final foi postergada por causa de minas terrestres e armadilhas na área.
Em Celine, moradores disseram que entre os mortos estavam Myftar Zeqiri, 60 anos, e 22 outros membros de sua família que foram posteriormente enterrados numa cova comum distante cerca de 100 metros da casa deles. Roupas, colchões e sapatos ainda estavam espalhados num caminho até a casa incendiada.
Paramilitares sérvios têm sido acusados por muitas das atrocidades cometidas em Kosovo e iniciadas em março. Eles deveriam ter partido de Kosovo como parte de um acordo que pôs fim aos 78 dias de bombardeios da Otan.
Em Pristina, o brigadeiro-general norte-americano John Craddock disse que as forças dos Estados Unidos estão investigando notícias de que paramilitares sérvios ainda estão atuando em Kosovo. Tropas norte-americanas se viram duas vezes na semana passada sob fogo de franco-atiradores, mas não houve feridos.
"Há um ambiente perigoso lá fora", afirmou ele. "Existem elementos... que desejam o mal para as forças da Kfor", disse ele, referindo à sigla da operação de paz. "Não vai haver uma solução rápida. Ainda existem muitos atos de violência. Ainda existem muitas casas sendo incendiadas à noite."
Soldados de paz têm tentado restaurar a ordem e evitar ataques de represália de albaneses étnicos contra sérvios desde que a Otan entrou na província em 12 de junho.
O Serviço de Informação da Igreja Ortodoxa Sérvia informou que albaneses étnicos assassinaram hoje um fazendeiro e dois condutores de trator sérvios em duas cidades de Kosovo. O fazendeiro teria sido morto depois de ignorar advertências de albaneses-kosovares para deixar a província.
O governo iugoslavo reclamou hoje que os soldados de paz não estão fazendo o suficiente para evitar "terrorismo" contra não albaneses, incluindo sérvios, ciganos e outros.
Pelo plano de paz, Kosovo continua sendo parte da Iugoslávia, apesar de estar efetivamente sob controle da Otan e da ONU. Mais de metade dos 860.000 albaneses étnicos que fugiram de Kosovo desde março já retornou para casa, a maioria da Albânia e da Macedônia.





