Viena, 19 (AE-AP) - Abandonado por seus principais aliados políticos e enfrentando chamados sem precedentes para que renuncie, o presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, parece cada vez mais desesperado para preservar seu poder.
Na semana passada, Milosevic fez suas primeiras aparições públicas desde outubro, buscando apoio e prometendo à população reconstruir o país, arrasado pelos bombardeios da Otan. Com as forças de segurança sérvias e a mídia estatal nas mãos, Milosevic ainda parece ter o firme controle da situação. E, sendo um mestre da autopreservação, é provável que ele use a força contra quaisquer movimentos - legais ou populares - para removê-lo.
Mas, aparentemente temeroso de um Exército cada vez mais inquieto, ele encheu oficiais de medalhas e promoções na terça-feira. Os militares, malpagos, têm mostrado sinais de insatisfação na esteira dos ataques aéreos da Otan, que custaram a vida de milhares de soldados e devastaram suas instalações, de quartéis e bases aéreas até sofisticados sistemas de defesa antiaérea.
Milosevic ainda tem o apoio dos sérvios da área rural, cujo apoio tem tido um papel-chave na preservação de seu poder autocrático iniciado há dez anos. Mas mesmo esse apoio foi corroído pelos bombardeios da Otan e pelo êxodo de dezenas de milhares de sérvios de Kosovo.
A influente Igreja Ortodoxa sérvia pediu terça-feira que Milosevic e seu governo renunciem e sejam substituídos por "novos funcionários, aceitáveis no país e no exterior". Embora a Igreja já tenha criticado o presidente antes, ela nunca havia pedido sua renúncia e apoio tacitamente suas campanhas militares na Croácia e Bósnia.
Mas a perda de Kosovo, sede do patriarcado sérvio, e o êxodo de cerca de 50 mil sérvios kosovares - temendo represálias dos rivais albaneses étnicos - horrorizaram a hierarquia religiosa. A Igreja tem influência política, principalmente entre os nacionalistas sérvios, que podem mover o maior desafio ao poder do presidente.
Causando mais problemas para Milosevic, seu principal aliado político, o ultranacionalista Partido Radical, anunciou sua saída da coalizão de governo da república da Sérvia, acusando o presidente de "entregar Kosovo sem luta". Sem os radicais, liderados por Vojislav Seselj, Milosevic não tem maioria no Parlamento sérvio, de 250 cadeiras, e seu governo pode ficar paralisado.
É provável que ele tente atrair o líder oposicionista Vuk Draskovic para a coalizão em substituição a Seselj. Mas Draskovic - que foi removido do cargo de vice-primeiro-ministro depois de indicar que Milosevic estava pronto para pôr fim ao confronto semanas antes que ele efetivamente fizesse isso - tem dito que não voltará ao governo, a não ser que "reformas democráticas fundamentais" sejam feitas na Sérvia.
Se os ultranacionalistas e os partidos da oposição democrática unirem forças com deputados da república de Montenegro (a parceira rebelde da Sérvia na Federação Iugoslava), Milosevic pode ser derrubado por uma votação no Parlamento federal.

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