Moscou, 09 (AE-AP) - Quando o enviado especial da Rússia para Kosovo, Viktor Chernomyrdin, retornou na semana passada a Moscou depois de mediar um plano de paz, um general russo com cara de poucos amigos permaneceu a seu lado e criticou abertamente o acordo como uma rendição ao Ocidente.
"Cada um de nós deveria responder a esta questão no fundo da alma - nós traímos ou não a Iugoslávia?" disse o general Leonid Ivashov, que acompanhou Chernomyrdin e representou o Ministério da Defesa nas conversações de paz.
O presidente Boris Yeltsin não censurou publicamente Ivashov por suas declarações. Na verdade, o presidente reuniu-se com o falante general um dia depois e não mostrou sinais de reprovação.
Agora que a Rússia concordou com o plano de paz de Kosovo, a oposição militar aos termos do acordo e seu apoio ao presidente iugoslavo Slobodan Milosevic apontam para potenciais problemas na implementação de uma operação de paz.
A Rússia e as sete nações mais industrializadas acertaram um esboço de uma resolução das Nações Unidas para pôr fim à crise de Kosovo. Mas enquanto a Otan afirma que estará no comando da força de paz, a Rússia diz que a completa estrutura de comando ainda tem de ser negociada.
A Rússia está considerando enviar até 10.000 soldados de propostos 50.000. Mas Ivashov e outros oficiais militares têm insistido que as tropas russas não servirão sob o comando da Otan. E a posição deles tem se tornado a visão oficial da Rússia.
"O presidente ainda determina a política exterior, mas ele e seu círculo íntimo pró-ocidental têm se tornado cada vez mais isolados", disse Pavel Felgenhauer, um analista militar independente. "É uma luta entre dois grupos, um dos quais favorece um rápido acordo com o Ocidente enquanto o outro quer ficar ao lado dos sérvios".
Os líderes russos têm unanimente condenado os ataques da Otan contra a Iugoslávia, mas eles diferem sobre como responder a eles.
Yeltsin tem dito desde o começo que a Rússia não será arrastada militarmente para a guerra, mas a hierarquia militar tem falado em enviar assessores - e mesmo armas - para a Iugoslávia.
"Eles podem demitir um general, mas eles não podem demitir a todos eles", afirmou Felgenhauer. "Ivashov expressa uma opinião amplamente compartilhada pela elite militar. Ele é esperto o suficiente para perceber que uma vez que o atual governo tenha partido, suas declarações patrióticas serão bem lembradas".
Um amplo sentimento anti-ocidental entre a elite russa e grande parte do público tem tornado difícil para Yeltsin censurar Ivashov e outros falcões sem ver sua já baixa popularidade cair ainda mais. "Existe um sentimento de que a Rússia será a próxima vítima depois que não conseguiu parar a Otan nos Bálcãs", afirmou Felgenhauer.
Yeltsin não pode criticar demais os militares, já que o Kremlin há muito usa a mesma posição anti-Otan. Enquanto expõem uma divisão na liderança russa, as declarações linha dura de Ivashov e outros generais não significam que as forças armadas da Rússia estejam à beira de um motim aberto, disseram analistas.
"A oposição militar não é estruturada, e está longe de se tornar uma força política independente", afirmou Sergei Oznobishchev, diretor do Instituto para Avaliação Estratética, um think-tank independente. "Um golpe militar é impossível", concordou Felgenhauer.

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