Cidade do México, 16 (AE-IPS) - A guerrilha zapatista não poderia se defender se fosse atacada pelo governo do México, pois milhares de soldados ocuparam todas as zonas estratégicas do estado de Chiapas apesar de protestos de políticos e de grupos de direitos humanos.
Em uma mobilização considerada normal e necessária pelo governo e uma invasão pela guerrilha, centenas de soldados tomaram no fim de semana novas posições em Chiapas, inclusive na chamada Reserva de Montes Azuis.
Essa era a única zona na qual não haviam entrado os militares e que se refugiavam camponeses simpatizantes dos rebeldes.
O governo se nega a revelar quantos militares estão agora em Chiapas, estado fronteiriço com a Guatemala, mas diversos grupos humanitários e políticos estimam que são mais de 50.000, número mais de oito vezes superior ao dos guerrilheiros armados, muitos com escopetas de baixo calibre ou simples machetes.
O governo de Ernesto Zedillo atribuiu as novas mobilizações à sua intenção de defender a construção de um caminho até a paz e garantir a segurança e o combate ao narcotráfico.
Os militares foram estacionados em 161 lugares distintos de Chiapas, a polícia em 57, pessoal do Instituto Nacional de Migração em 24 e agentes da Procuradoria-Geral em 13, informou o não- governamental Centro de Investigações Econômicas e Políticas de Ação Comunitária.
Todos esses lugares são militarmente estratégicos e sua escolha tem como objetivo cercar a guerrilha do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), acrescentou o centro.
Mas o coordenador governamental para o diálogo em Chiapas, Emilio Rabasa, assegurou nesta segunda-feira à rádio Red que não existe nenhuma intenção de provocar ou atacar os zapatistas. Rabasa reiterou, também, o chamado da administração à negociação de paz.
A nova mobilização de militares colocou os soldados "nas nossas costas", afirmou o subcomandante Marcos, líder da guerrilha. A intenção do governo é atacar o ELZN e garantir uma futura exploração de petróleo na zona, onde existem importantes reservas, disse.
O deputado opositor do centro-esquerdista Partido da Revolução Democrática Gilberto Rivas, integrante da Comissão de Concórdia e Pacificação do parlamento, também protestou.
"Não podemos ser cúmplices nem permanecer impassíveis ante os novos movimentos de tropas, que colocam em evidência a verdadeira intenção do governo federal de fechar o cerco em torno do EZLN. O Congresso deve atuar com rapidez, pois já é impossível que os zapatistas continuem recuando", afirmou Rivas.
Agrupados na fronteira com a Guatemala, os mais ou menos 5.000 homens armados de que disporia o ELZN não disparam um único tiro desde a segunda semana de janeiro de 1994, quando o governo suspendeu os ataques e abriu o diálogo de paz depois de 12 dias de confrontos entre a guerrilha e o exército.
Enquanto as conversações sofriam idas e vindas, o exército ampliava lenta mas constantemente sua presença em Chiapas "até nos deixarem com um pé na Guatemala e outro no México", disse Marcos há alguns meses em tom de brincadeira.
O diálogo está suspenso desde 1996, e apesar de não haver enfrentamentos diretos entre guerrilha e o exército, a violência na zona, atribuída a grupos paramilitares, problemas religiosos e discrepâncias políticas, é uma constante.
Pelo menos 1.500 indígenas opositores foram assassinados desde 1994, segundo um informe preparado pelo Partido da Revolução Democrática e entregue em abril à Procuradoria-Geral.
A última "agressão militar" contra "as comunidades rebeldes foi para lembrar a todos que em Chiapas existe uma guerra, com um povo em resistência e um exército de ocupação", declarou Marcos este fim de semana.
O governo tem reiterado que a guerrilha não quer a paz e foge das negociações, enquanto o EZLN insiste que é o governo que engana, persegue seus adversários e não cumpre seus compromissos.
Os contatos foram interrompidos pela recusa do governo de aceitar um projeto-de-lei sobre direitos indígenas preparado pela Comissão de Concórdia e Pacificação do Congresso nacional com base nos Acordos de San Andrés.
O governo propôs um projeto diferente do preparado pelos deputados de diversos partidos, inclusive o governante Revolucionário Institucional, e respaldado pela guerrilha, por considerar que o original oferecia autonomia exagerada às comunidades indígenas e colocava em risco a unidade do país.
Enquanto a militarização continua e o diálogo parece ter sido adiado para depois de 2000, quando termina o mandato de seis anos de Zedillo, o ELZN propõe desde a selva iniciativas políticas objetivando denunciar as injustiça em Chiapas, unir grupos civis opositores e pedri mudanças na estratégia do governo.
O governo, nas palavras do presidente, sustenta que tem uma "paciência infinita" para solucionar pacificamente o conflito de Chiapas e que nunca atacará a guerilha.

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