Militares desfecham golpe no Paquistão
Islamabad, Paquistão, 12 (AE-AP) - Militares paquistaneses tomaram hoje o controle da rádio e TV estatais, fecharam os aeroportos e anunciaram a deposição do governo democraticamente eleito de Nawaz Sharif, depois que o primeiro-ministro tentou afastar o poderoso chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, general Pervez Musharraf. Assim que começou a movimentação militar no Paquistão, a vizinha e arquiinimiga Índia pôs imediatamente suas Forças Armadas em alerta máximo e manifestou sua "grave preocupação" com os acontecimentos.
A TV estatal ficou fora do ar por pouco tempo. Depois, os militares divulgaram pela emissora uma mensagem anunciando a "dissolução" do governo e informando que Musharraf iria falar à nação mais tarde. Segundo o escritório de informações do Exército, Musharraf estava no estúdio da emissora em Karachi, preparando o discurso.
Os militares fecharam os aeroportos de Islamabad, Karachi e Lahore, bloquearam as principais estradas e cercaram também o Parlamento e outros edifícios públicos, além das residências dos ministros e do governador do Estado de Punjab, Shahbaz Sharif, irmão do primeiro-ministro. Horas depois, a polícia informou que ambos estavam em "proteção sob custódia" na casa de Nawaz.
A população mostrava-se confusa quanto ao que estava acontecendo, mas não havia sinais de combates. Um residente de Islamabad disse apenas ter ouvido tiros que pareciam vir do bairro diplomático de Margalla. Centenas de moradores e jornalistas que seguiram para a residência de Sharif e de outros dirigentes depararam-se com o bloqueio militar.
Outras centenas de pessoas reuniram-se em frente ao prédio da TV estatal, gritando lemas de apoio ao golpe. "Longa vida ao Exército", repetia a multidão. Em Lahore, cidade natal de Sharif, multidões também foram às ruas para comemorar a ação do Exército.
O que parece ter detonado o golpe foi o surpreendente anúncio da substituição de Musharraf pelo general Jawaja Ziauddin, chefe dos Serviços de Inteligência do Exército e leal ao primeiro-ministro. Sharif fez o anúncio hoje de manhã, enquanto o chefe do Estado-Maior estava em visita ao Sri Lanka. Musharraf - que conta com o apoio dos principais comandantes - voltou imediatamente ao país e foi recebido por uma grande contingente militar no aeroporto de Karachi.
As divergências entre Sharif e Musharraf emergiram em junho, quando uma aventura militar paquistanesa na disputada Caxemira pôs o país à beira da guerra com a Índia. Na ocasião, o governo de Sharif acusou o general de realizar operações no território sem seu consentimento. Mas, num pronunciamento público, Musharraf garantiu que o primeiro-ministro estava a par de tudo.
A tensão com a Índia foi reduzida quando o Paquistão, sob forte pressão dos EUA, concordou, em julho, em retirar o que chamou de "lutadores da liberdade" de Kargil, na Caxemira indiana. Mas o recuo agravou as relações entre as lideranças civil e militar paquistanesas e provocou uma campanha de protestos da oposição, que acusou Islamabad de "ter-se vendido" em relação à Caxemira.
A partir daí espalharam-se os rumores de um possível golpe, que foram crescendo a ponto de os EUA, no início do mês, terem advertido os generais paquistaneses contra planos golpistas. A advertência foi feita imediatamente após uma visita de Shahbaz Sharif a Washington.
Procurando reduzir a tensão interna, Nawaz Sharif anunciara na semana passada um voto de confiança em Masharraf, afirmando que este ficaria no posto até o fim de seu mandato, em outubro de 2001. Mas isso não acalmou os altos comandantes. Poucos dias atrás, Musharraf afastou um de seus oficiais por ter-se reunido com Sharif sem sua permissão. Além da questão da Caxemira, os comandantes leais a Musharraf vinham manifestando seu descontentamento com o estilo autoriário de Sharif e com a crescente corrupção em seu governo, além de acreditarem que o primeiro-ministro estaria planejando dividir o Exército.
A exilada líder oposicionista Benazir Bhutto disse que o golpe tem pouco a ver com a Caxemira e muito com o autoritarismo de Sharif. "Ele tem tentado desmantelar a democracia, tem afastado todo mundo - o chefe da Justiça, o presidente -, tem atacado a imprensa, os investidores estrangeiros e a oposição", afirmou Bhutto em Londres. Ela disse que voltará ao país "se forem realizadas eleições livres e limpas".





