Militares de países vizinhos envolvidos
Documentos e depoimentos recolhidos em mais de um ano de trabalho pela CPI do Tráfico de Armas da Câmara comprovam que a prática, em muitos casos, conta com o envolvimento direto e decisivo de militares de alta patente (inclusive generais) de países como Argentina, Paraguai, Uruguai e Suriname. Os relatórios incluem até trechos de escutas telefônicas, em que são citados nomes de generais e oficiais de alta patente.
Criada em março de 2005, a CPI deveria concluir as investigações em abril, mas os trabalhos foram prorrogados e o relatório final será apresentado agora em junho. O presidente da comissão, deputado Moroni Torgan (PFL-CE), que é delegado da Polícia Federal, informou à Agência Câmara que uma das propostas será a de se criar uma rede de apoio internacional para mobilizar as nações vizinhas no sentido de identificar e punir os responsáveis pelo envolvimento das Forças Armadas com o tráfico de armas.
''A informação que temos é de que são todos militares dos exércitos destes países. Da mesma forma que traficam armas para o Brasil, estão traficando para os bandidos de lá também'', disse Moroni, para quem a colaboração da Interpol e das embaixadas dos países sul-americanos é essencial para combater o tráfico.
Em depoimento à CPI das Armas, o general Rosalvo Leitão de Almeida, diretor de Fiscalização de Produtos Controlados do Exército, admitiu que a fronteira de mais de 1.500 quilômetros entre o Brasil e nove países da América do Sul tornou-se um mercado aberto do tráfico de armas. Rosalvo assegurou que o desvio de armas de uso exclusivo das Forças Armadas brasileiras não é significativo: nos últimos três anos, teriam sido roubadas do Exército apenas 39 armas, das quais 24 já foram recuperadas.
A declaração esbarra em dados do relatório parcial da CPI, divulgado há cerca de um mês. Com base em informações fornecidas pela Indústria de Material Bélico do Brasil (Imbel), administrada pelo Exército, afirma-se que cerca de um terço de um lote de mil armas apreendidas com criminosos pela polícia no estado do Rio de Janeiro vieram dos estoques de forças de segurança como Exército e polícias Militar, Civil e Federal.
Vale lembrar que o traficante Fernandinho Beira-Mar foi preso em 2001 na Colômbia, quando trocava armas (os famosos fuzis automáticos AK-47 Kalashnikov) por cocaína com membros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Na época, ele declarou aos militares colombianos que parte do pagamento pela cocaína foram 3 mil fuzis e mais 3,5 milhões de cartuchos, todos contrabandeados via Paraguai.(A.S.)





