Militares da Otan e da Iugoslávia assinam acordo de paz
KUMANOVO, Macedônia, 09 (AE-AP) - Generais da Otan e da Iugoslávia assinaram hoje (09) o acordo militar técnico para retirada de todas as forças sérvias de Kosovo, abrindo caminho para o fim da campanha de bombardeios de 11 semanas da aliança e o retorno de centenas de milhares de refugiados albaneses étnicos.
Um oficial sérvio disse que Belgrado irá começar a retirar suas forças nesta quinta-feira. Refugiados no norte da Albânia se abraçaram quando ouviram as notícias do acordo.
Em Belgrado e na capital kosovar de Pristina, as pessoas comemoraram a notícia fazendo disparos para o ar e tocando buzinas. "A guerra terminou", disse o general sérvio Svetozar Marjanovic, do Estado-Maior das Forças Armadas iugoslavas, que firmou na Macedônia o documento apresentado pelo general britânico Michael Jackson, chefe das forças de reação rápida da Otan. Marjanovic acrescentou que as conversações foram "muito difíceis".
O general Jackson fez o anúncio da assinatura depois de extensas negociações na base militar francesa nas proximidades da fronteira com Kosovo.
Não foram divulgados detalhes do acordo. Mas Jackson disse que ele estabelece planos de como todas as forças sérvias conduziram uma "retirada em etapas, verificável e ordenada de Kosovo."
"Ele também oferece uma clara base legal para o desembarque de uma força de segurança internacional... a fim de estabelecer um ambiente de segurança em Kosovo", afirmou.
"Pelos termos do acordo e uma vez confirmado o início da retirada, o secretário-geral da Otan (Javier Solana) anunciará o fim dos bombardeios", acrescentou o general Jackson, com uma advertência: "Quero deixar bem claro o seguinte: se a retirada for insuficiente, o acordo prevê a retomada da campanha aérea."
Em Bethesda, Maryland, o presidente norte-americano Bill Clinton saudou o acordo e disse que a Otan irá "observar cuidadosamente" para ter certeza que as forças deixem pacificamente Kosovo de acordo com os prazos estabelecidos. Ele afirmou que o acordo "é outro importante passo no sentido de alcançar nossos objetivos em Kosovo".
Em Londres, o primeiro-ministro britânico Tony Blair também aplaudiu a assinatura e disse que a principal tarefa agora é fazer retornar os refugiados albaneses étnicos para suas casas em Kosovo.
"Existe um imenso trabalho a ser feito assim que as forças sérvias saírem, as forças internacionais entrarem e nós levarmos os refugiados para casa. Fizemos uma promessa aos refugiados de que eles irão para casa e vamos cumprir", disse Blair num comunicado.
O porta-voz do Pentágono, Kenneth Bacon, afirmou que os sérvios poderiam começar a sair "em questão de horas".
"Eles tem de começar a sair e nós temos de verificar isto", disse Bacon.
O porta-voz do Ministério de Exterior da Iugoslávia, Nebojsa Vujovic, que participou das negociações, afirmou que as forças sérvias iriam começar a deixar Kosovo nesta quinta-feira. Ele exigiu uma imediata suspensão dos bombardeios.
Os militares iugoslavos debateram item por item do texto com o general Jackson. Várias vezes interromperam a discussão para pedir instruções a Belgrado, apesar das repetidas afirmações de Jackson que não estava ali para negociar, mas para apresentar o cronograma da retirada que deveria ser integralmente cumprido pelos sérvios - única condição para terminar os bombardeios.
"Vamos pôr nossos soldados em todas as vilas, povoados e cidades de Kosovo; vigiaremos as ruas e até os semáforos", disse o porta-voz militar da Otan, general alemão Walter Jertz.
Pela manhã, as autoridades iugoslavas haviam anunciado o começo da retirada das unidades da polícia sérvia que participaram da campanha da repressão e expulsão dos albaneses étnicos de Kosovo - maioria esmagadora da população do território. O Pentágono e a Otan confirmaram "movimentações de tropas sérvias que poderiam indicar o começo da desocupação de Kosovo". Mas o porta-voz da Otan, Jamie Shea, disse que a aliança manteria a campanha aérea, desmentindo o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Joschka Fischer, que havia anunciado o fim dos bombardeios.
Fischer acabara de conversar por telefone com o presidente russo, Boris Yeltsin, que definiu a manutenção dos ataques como uma "insensatez absurda".
Em Belgrado, a população recebeu com alívio o acordo militar, que encerra mais de dois meses de campanha aérea contra o país, com média de mais de 200 missões de diárias de lançamento de bombas.
Na cidade nortista albanesa de Kukes, um grupo de homens refugiados se abraçaram na praça da cidade quando ouviram notícias do acordo de paz. Eles também abraçaram Philippa Hewitt
uma neozelandesa da Med Air, um grupo suíço que ajuda a orientar os refugiados chegando de Kosovo.
"Estou muito feliz por eles porque isto trouxe um pouco de esperança", disse Hewitt. "Tem sido tão difícil. Meus colegas de Kosovo são jovens. Mas ainda há muito trabalho para ser feito antes de os refugiados poderem ir para casa. Eles não retornarão ao mesmo país do qual partiram. Nós queremos que o retorno deles ocorra de um modo controlado."
Vários refugiados expressaram alegria ao ouvir falar da assinatura do acordo de paz, mas também havia alguns que permaneceram céticos como na semana passada, quando o acordo foi anunciado.
Delnie Vehopi, de 24 anos, que deixou parte de sua família em Kosovo, disse que "não é tão fácil acreditar nisso". "Mas assim que pudermos regressar, nós partiremos", disse Vehopi. "Deixamos tudo para trás. Nós não temos nenhum problema com os sérvios que vivem em Kosovo. Era só o exército sérvio."
Perguntados sobre se os refugiados iriam apressar sua partida para Kosovo, alguns disseram que esperariam. Um jovem afirmou: "Esperamos anos por isto. Nós podemos esperar alguns dias mais."





