Militar deixa CTA por divergências em relação à venda da Embraer
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quarta-feira, 29 de março de 2000
Por Júlio Ottoboni 
São José dos Campos, SP, 30 (AE) - O ex-diretor do Centro Técnico Aeroespacial (CTA) brigadeiro Aluízio Weber pediu seu desligamento do cargo no início do ano e passou à reserva por ser contrário à venda de ações da Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer) a um consórcio francês. O militar, que também era o representante da União no Conselho de Administração da ex-estatal, disse que recebeu orientações do Comando da Aeronáutica e do Ministério da Defesa para endossar a negociação e não contrariar o parecer da Advocacia-Geral da União (AGU), que definiu como legal a transação entre a ex-estatal e o grupo de empresas estrangeiras.
O brigadeiro Weber recebeu ordens para dar uma procuração para que fossem realizadas novas vendas de ações da Embraer nos Estados Unidos, o que acontecerá dentro de alguns meses. Essas revelações foram feitas na mensagem de transmissão de cargo, ocorrida no último dia 22, e transcrita no boletim interno do CTA, obtido com exclusividade pelo Grupo Estado. O ex-diretor revela que o próprio comandante da Aeronaútica, brigadeiro Carlos de Almeida Baptista, lhe telefonou durante a reunião do conselho da Embraer oferecendo uma promoção e a passagem à reserva, embora pedindo que permanecesse mais um ano à frente do CTA.
No texto, o militar trata o assunto com riqueza de detalhes e uma certa ironia. "Contudo, por uma feliz coincidência, aquela comunicação me trouxe enorme alívio. Eu a recebi justamente durante uma reunião do Conselho de Administração da Embraer, o qual eu integrava representando a União Federal desde a privatização da empresa em 1994", revela.
Disciplina - "Teria, por disciplina intelectual, e obedecendo orientação do exmo. sr. ministro da Defesa e do comandante da Aeronaútica, que assinar documentos que significariam minha concordância com a inserção dos franceses na administração da empresa", declara Weber.
A reunião do Conselho da Embraer citada ocorreu no dia 9 de fevereiro, na qual se consolidaria a associação com o pool formado pelas empresa francesas Aeroespatiale, Matra, Dassault e Snecma. O brigadeiro Weber disse que já se sentia muito pressionado a cumprir as determinações impostas por seus superiores. Ele lembra que o atual ministro da Defesa, Geraldo Magela da Cruz Quintão, assumiu a pasta dois dias depois de ter dado o parecer favorável à transação como advogado da União.
"Tais fatos estavam me conflitando internamente havia dez dias, desde quando eu recebera a orientação superior para não contrariar o parecer da AGU. Assim, por milagre quem sabe, aquela comunicação de aviso prévio do exmo. sr. comandante da Aeronáutica, coincidentemente recebida pouco antes do momento em que eu deveria assinar as diversas atas e procurações relativas à referida transação da Embraer, abriu a minha mente para, imediatamente, cancelar a minha disponibilidade para firmar aqueles indigestos documentos."
Desligamento - Apesar de querer continuar na direção do CTA e na ativa, o brigadeiro Weber disse que se desligou imediatamente do Conselho de Administração da empresa, foi para seu gabinete no CTA e comunicou ao comandante Carlos Baptista que aceitaria a promoção e a reserva. "Desde agosto do ano passado, no primeiro momento em que a confidencial transação do Banco Bozano Simonsen foi descoberta, eu vinha ferrenhamente lutando em todos os níveis pela não-aprovação governamental, até junto ao exmo. sr. presidente da República, em 15 de dezembro último."
A mensagem final do militar explica ainda os motivos de sua decisão. "Essa minha atitude foi por julgar que aquela venda de participação acionária da Embraer significaria, na prática, a entrada do poderoso Estado francês, por meio de suas empresas estatais e semi-estatais de Defesa e aeroespacial, na administração da nossa única e estratégica indústria aeronáutica. E tudo isto sem a contrapartida de um centavo sequer para a Embraer, pois todo o montante auferido na transação foi exclusivamente para o Banco Bozano, a Previ e a Sistel."


