Militar comanda segurança na "praça do povo"
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quarta-feira, 25 de agosto de 1999
Por Fausto Macedo 
Brasília, 26 (AE) - São 12h30 na Brasília sitiada. De sua trincheira - no alto de uma encosta ao lado do Congresso Nacional -, o coronel-comandante das tropas militares observa o avanço da multidão, cidadãos descamisados, embandeirados e sem dentes que se aproximam do espelho dágua que os separa de uma linha de 400 soldados e oficiais. Há um corre-corre. Os mais atrevidos - uns 10 rapazes animados - se atiram na água e arremessam garrafas de plástico vazias e mastros de bandeiras sobre os policiais, que permanecem perfilados, quase imperturbáveis. Vaias e gritos desafiam os soldados. Um helicóptero das forças de segurança sobrevoa a área.
Seguem-se minutos tensos da marcha na Esplanada dos Ministérios. Toca o celular do coronel Antonio Ribeiro da Cunha - o comandante-geral da Polícia Militar do Distrito Federal e chefe da megaoperação montada para proteger o Palácio do Planalto e o patrimônio público. Do outro lado da linha fala um assessor do ministro-general da Casa Militar, Alberto Cardoso. "É aquele pessoal do PSTU e do PC do B que a gente já conhece, é melhor evitar o confronto", avalia o coronel.
O interlocutor indaga se não é hora de reforçar o batalhão à porta do Congresso. "Não há necessidade, para nós essa praça aqui é do povo", responde o coronel. "O problema é impedir que eles entrem na Câmara e no Senado, vamos administrar assim." Dali a pouco, os manifestantes parecem se acalmar. O coronel relaxa. "Isso é democracia".
Surge Lula. O povo o saúda: "Olê, olê, olá, Lula, Lula". José Genoíno vem em seguida. "Esse cara é tratável, tem a cabeça no lugar", diz o coronel. O ex-governador Brizola também está lá: "Ele já passou pela história e a história passou por ele", observa outro coronel, João Coelho Vítola, comandante da Academia de Oficiais do Distrito Federal.
Uma vez mais toca o celular do comandante-geral. Agora é o coronel César Caldas, chefe da Casa Militar do Governo do Distrito Federal. O governador Joaquim Roriz (PMDB) quer ser informado sobre a marcha. "Está tudo sob controle, houve um pequeno tumulto quando a comissão deles veio entregar o abaixo-assinado", relata o coronel Ribeiro. "Pode avisar o governador que está tudo em ordem (...) Passa de 60 mil manifestantes, a massa humana é muito grande mas tá na mão, nossos homens não entraram na provocação".
O coronel Ribeiro fala dos comandados: "A tropa está contente, está todo mundo feliz; eu tinha medo que ficassem estressados mas Deus vai ajudar, vai terminar tudo sem alteração."
Dez minutos depois, o assessor militar de Roriz faz nova ligação. O governador está na linha. "Já estão subindo de volta para o palanque", descreve o coronel Ribeiro, enquanto os manifestantes abandonam a entrada do Congresso e retornam pela grande área gramada. Ouve-se vaias. São para os políticos. "Estão vaiando deputados do próprio PT", fala o coronel ao governador. "O Lula, o Genoíno e companhia estão subindo, estão saindo do Congresso."
A multidão grita insultos para o presidente Fernando Henrique Cardoso. É assim quase o tempo todo. "FHC, vagabundo é você! " Alguns exaltados testam a tolerância dos soldados: "Aí samango babaca". Nada parece alterar o ânimo da tropa. Armas e cassetetes permanecem nos coldres e embainhados. "Nosso policial não se abala, o cidadão pode chamá-lo de santo ou rapadura", anota o tenente-coronel Juan José Lopes, comandante do 1.º Batalhão (Asa Sul).
Às 13 horas, o coronel Ribeiro parecia aliviado. Despediu-se de outros oficiais e foi ao encontro do secretário da Segurança Pública, Paulo Castelo Branco. Durante quatro horas, o comandante-geral permanecera em seu posto de observação, ao lado do Congresso. Dali, comandou o teatro de operações sem sobressaltos. Manteve cães, metralhadoras, fuzis e bombas distantes da marcha - às portas do Palácio. "Segura seus pit buls", orientou o coronel, dirigindo-se ao comandante do Batalhão de Operações Especiais (Bope), unidade de elite da Tropa de Choque. "A última coisa que eu quero é mobilizar a força reserva", ponderou Ribeiro.
Antes de se instalar junto ao Congresso, o coronel percorreu as ruas e avenidas de uma Brasília tomada pelo exército de soldados e oficiais - 5,5 mil homens armados, divididos em pelotões que fizeram manobras a pé e a bordo dos camburões. Uma fantástica demonstração de força. A partir de 7 horas, o grosso do efetivo tomou a esplanada. No alto dos prédios dos ministérios, havia 30 militares do Grupo Tático Operacional, munidos de binóculos, com a missão de observar os manifestantes e identificar eventuais focos de radicais.
O aparato se espalhou estrategicamente pelas calçadas dos ministérios. Três batalhões, com 700 homens, se alinharam entre a Catedral - ponto da concentração - até os portões do Palácio do Itamarati. Do outro lado do eixo que corta a esplanada, os cavalos iam e vinham.


