Milícias no Timor Leste lançam ataques para bloquear autonomia
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quarta-feira, 28 de abril de 1999
Por Chistopher Torchia, da Associated Press (assinatura obrigatória) 
Dili (AE-AP) - Segundo um dos rumores que circularam há poucas semanas na capital regional Dili, as milícias pró-Indonésia se propunham a atacar a residência de um proeminente líder separatista. De acordo com outro rumor, um blecaute em um bairro de Dili era o prelúdio de um ataque dos milicianos. Apesar de terem se mostrado falsos, ambos os rumores são um indício do nervosismo que afeta muitos dos 800 mil habitantes do Timor Leste quando se fala das guerrilhas armadas, cujos ataques aumentaram em intensidade e ousadia no território da ex-colônia portuguesa.
Há poucos meses, o movimento separatista recebeu com entusiasmo o anúncio da decisão de Jacarta de convocar um plebiscito que poderia resultar na independência do Timor Leste, um território português que foi invadido em 1975 pela Indonésia e anexado no ano seguinte. Desde então os residentes da área têm sido alvos de ataques rebeldes e de abusos dos direitos humanos, que incluíram em meados de abril um incidente no qual milícias pró-Indonésia percorreram as ruas de Dili atacando os separatistas e incendiando suas casas.
Em 21 de abril, poucos dias após o tumulto, representantes de ambos os lados fizeram a todos uma promessa de paz cuja efetividade, no entanto, ainda não foi demonstrada. Dois dias depois, diplomatas da Indonésia e de Portugal anunciaram que assinariam um acordo no dia 5 de maio sobre o futuro do território. Mas, até o momento, milhares de milicianos estreitamente vinculados aos militares indonésios têm lançado uma violenta campanha para frustrar os planos de realização de um plebiscito supervisionado pela ONU, que poderia ter como resultado a independência do Timor Leste.
O governo de Jacarta disse que renunciará ao Timor se seus residentes aprovarem a autonomia que esta votação lhes oferece. Nos fins de abril o presidente Habibie anunciou que o plebiscito será realizado em 8 de agosto. O presidente não disse se a convocação do referendo implicará no desarmamento das milícias paramilitares, mas indicou que será permitido aos timorenses determinarem seu futuro "em paz e com honra". "Aceitaremos o que eles decidirem, seja a integração ou a separação", disse Habibie.
Em um dos maiores ataques recentes, uma milícia que deseja a manutenção da anexação pela Indonésia matou no dia 6 de abril os fiéis reunidos nos prédios de uma igreja em Liquica, perto de Dili. Dirigentes católicos disseram que pelo menos 25 pessoas morreram no ataque. Em uma carta divulgada recentemente, um líder da milícia advertiu aos empregados públicos do Timor Leste partidários da independência que eles deveriam entregar seus veículos e residências oficiais. "Se não os entregarem, nos os tiraremos à força", disse Basilio Dias Araújo, um empregado do governo local e coordenador do acampamento pró-Indonésio. As campanhas de combate violento lançadas por uma dezena de grupos de milicianos parecem ter surtido efeito. O dirigente rebelde encarcerado José
Alexandre "Xanana" Gusmão ordenou recentemente a suas forças instaladas nas montanhas que intensifiquem seus ataques contra os militares. Os grupos independentistas cívicos, por sua parte, se abstiveram de organizar marchas nas ruas por temerem choques com os milicianos.
As milícias têm o respaldo dos militares indonésios, que deram treinamento e armas a muitos deles, inclusive fuzis M-16. Vários chefes do exército, que consideram os grupos armados como auxiliares da polícia, têm estado presentes em suas fileiras. Entre as milícias mais conhecidas figuram: Besi Merah Putih, que quer dizer "arma vermelha e branca", uma referência às cores da bandeira da Indonésia. Seus membros levaram a cabo o ataque aos prédios da igreja; Aitarak, que significa "granada" no dialeto local. O líder do grupo é Eurico Guterres, ex-chefe de uma operação de jogo ilegal; Mahidi, uma sigla equivalente a "vida ou morte para a integração" com a Indonésia. Defensores dos direitos humanos dizem que o Mahidi tem cerca de mil membros e 37 armas, fornecidas pelo exército; Halintar é o "relâmpago". Diz-se que seus membros andam em motocicletas pelas estradas rurais e obtêm informações de seus residentes. Seu chefe é João Tavares, um militante pró-Indonésio ativo há mais de duas décadas. Alguns se incorporaram às milícias mais porque estavam desempregados do que por convicção política, e outros o fizeram pela força imposta pelos grupos. "Me integrei a este grupo porque assim me sinto mais seguro", disse Armando, de 26 anos, um membro da Aitarak. "O grupo pró-integração é mais forte que o lado oposto".


