São Paulo, 13 (AE) - Depois da vitória da independência no plebiscito de Timor Leste, os milicianos estabeleceram como objetivo criar um enclave dentro do território, que seria por eles dominado.
Esse é o propósito por trás da explosão de violência que se seguiu à divulgação do resultado do plebiscito, de acordo com o cientista político brasileiro Luís Bitencourt, que coordenou o processo eleitoral no distrito de Ambeno, área habitada por 57 mil leste- timorenses dentro do território de Timor Oeste.
"Eles procuraram forçar uma situação de caos a tal ponto que haveria uma concordância de se cortar uma fatia de Timor Leste para dar a esses grupos", disse Bitencourt à AE. Os 20% que votaram a favor do plano de autonomia do presidente Habibie passariam a viver nessa faixa de terra, localizada na fronteira entre Timor Leste e Oeste, em torno da cidade de Maliana. Não por acaso, essa foi uma das áreas mais atingidas pela violência.
"Isolar os que são contra a independência é um plano absurdo, mas é isso o que eles pretendem", afirma Bitencourt, professor de Ciência Política na Universidade Católica de Brasília e contratado pela ONU especificamente para essa tarefa, por indicação da missão brasileira perante o organismo.
Na qualidade de coordenador regional, Bitencourt, que ficou em Timor entre 19 de junho e 4 de agosto, reuniu-se com líderes das milícias partidárias da integração com a Indonésia e da guerrilha separatista.
Uma hora depois da divulgação do resultado do plebiscito, no dia 4, Bitencourt se encontrou com Eurico Guterres, líder da milícia Aitarak. Ambos tomaram o mesmo avião de Dili para Jacarta. Paramentado para a guerra, com uniforme de combate e granadas penduradas no pescoço, e escoltado por milicianos armados, Guterres revelou sua "preocupação com as minorias" e defendeu a criação da área para os favoráveis à integração.
Por causa da violência promovida pelos milicianos, uma força internacional de paz, já consentida pelas Forças Armadas da Indonésia, deve desembarcar em Timor Leste. Aí, a esperança dos milicianos é a de que a ONU aceite, como parte da solução para o conflito, a criação de uma espécie de cantão, sob o controle deles.
Bitencourt conta que, inicialmente, os anti-separatistas imaginavam que ganhariam "facilmente" o plebiscito. Sua percepção pode ter sido falseada pelo fato de os grupos pró-independência terem estado inteiramente "abafados" pela repressão. A campanha eleitoral organizada pela ONU, entre 14 e 27 de agosto, foi sua primeira oportunidade de atuação política ostensiva.
Com a evolução da campanha e a presença expressiva de eleitores nos comícios pró-independência, os milicianos iniciaram os ataques para intimidar esses eleitores. Não funcionou. O comparecimento foi de quase 100%. Na seção eleitoral em que Bitencourt estava, 808 dos 814 inscritos foram votar. "Eles demonstraram muita coragem."
O distrito de Ambeno é estratégico por se localizar na parte oeste da ilha, reconhecida internacionalmente como território indonésio, ligada ao lado leste por uma estrada na costa. Os milicianos bloquearam essa estrada. O destino da área é incerto.

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