Milicianos pró-Indonésia incendeiam sede da ONU em Dili
Dili, 14 (AE-AP) - Milicianos pró-Indonésia incendiaram a sede da Missão das Nações Unidas em Timor Leste (Unamet) em Dili, capital timorense, poucas horas depois que o pessoal da organização e cerca de 1,5 mil refugiados foram levados para Darwin, Austrália.
Alguns dos 12 funcionários da Unamet que permaneceram em Dili disseram que uma coluna de fumaça saía do complexo, informou Fernando del Mundo, do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur), que está em Jacarta, Indonésia.
Durante mais de uma semana os milicianos dispararam contra o prédio da Unamet, destruíram automóveis e ameaçaram jogar granadas contra o complexo, onde estavam refugiados milhares de timorenses.
Em Nova York, o Conselho de Segurança da ONU, em reunião de emergência, analisava hoje um projeto de resolução, apresentado pela Grã-Bretanha, autorizando o envio de uma força de paz internacional para Timor Leste. Alguns diplomatas disseram que seria possível que os 15 membros do CS chegassem a um consenso ainda hoje, possibilitando o envio da força de intervenção até o fim da semana.
Segundo o projeto, o contingente multinacional permaneceria por um período inicial de quatro meses em Timor Leste e teria o direito de usar a força para "restaurar a paz e a segurança" na região. A resolução também exorta o governo indonésio "a cooperar" com a força internacional e "autoriza os países participantes da força a tomar as medidas necessárias para cumprir seu mandato".
Mas as milícias pró-Jacarta anunciaram hoje mesmo que lutarão contra as tropas que forem enviadas a Timor. Câncio Carvalho, subcomandante de uma coalizão de milícias, disse à agência indonésia Antara que seus efetivos manterão forte resistência.
A onda de violência perpetrada pelos milicianos com o apoio das forças de segurança indonésias começou no dia 4 em Timor Leste, após o anúncio do resultado do plebiscito do dia 30, amplamente favorável à independência da ex-colônia portuguesa, invadida pela Indonésia em 1975.
O presidente indonésio, B. J. Habibie, disse hoje em Jacarta, durante encontro com embaixadores da União Européia, que não põe nenhuma condição para a formação da força multinacional. Essa declaração parece superar o obstáculo criado na segunda-feira pelas Forças Armadas indonésias sobre a possível liderança australiana da intervenção. A Austrália ofereceu-se para liderar uma força de 7 mil homens e fornecer 4,5 mil soldados.
Por causa da violência, centenas de milhares de timorenses foram obrigados a abandonar suas casas nos últimos dias. Uma parte refugiou-se nas montanhas próximas de Dili e muitos foram trasladados para a província indonésia de Timor Oeste, à força e sob a mira de fuzis, pelos próprios militares indonésios. Uma agência humanitária do governo australiano começará a jogar depois de amanhã de pára-quedas alimentos e remédios sobre várias regiões de Timor Leste para amenizar a situação de milhares de refugiados.
Os cerca de 1,5 mil timorenses que se haviam refugiado na missão da ONU em Dili chegaram hoje à Austrália, exaustos. Agarrados a seus poucos pertences, choravam ou riam de alegria ao desembarcar em Darwin, por escapar do verdadeiro inferno em que se transformou a capital timorense. Uma refugiada entrou em trabalho de parto e foi levada imediatamente ao hospital. E médicos australianos constataram que muitas crianças estavam com varíola ou tuberculose.





